As Origens da Astrologia

Começamos hoje a penetrar no fundo da História da Astrologia, sabendo que o maior conhecimento das origens da Astrologia ajuda a compreender o seu alcance, potencialidades e credibilidade.

Embora as raízes da astrologia se encontrem  em culturas anteriores, especialmente na Mesopotâmia e Babilónia, passando pelo Egito, não existe documentação suficiente dessa época para podermos compreender os seus fundamentos, havendo apenas  alguns horóscopos babilónios que datam do séc. V antes de Cristo. Assim, é na Astrologia helenística desenvolvida pelos gregos , especialmente a partir de Alexandre o Grande, que a Astrologia começa a ser sistematizada e desenvolvida com relevo especial na cidade de Alexandria, centro extraordinário da cultura mundial da época.

Considera-se que os sacerdotes/astrólogos da Babilónia, especialmente Berossus, que se estabeleceu na ilha de Cós, tenham sido os responsáveis pela introdução da astrologia na Grécia. Os primeiros astrólogos gregos atribuíam a origem deste saber a Hermes e a um sacerdote egípcio, chamado Nechepso. Eram também atribuídas obras de astrologia a autores como Asclépio, Pitágoras, Anúbion, Orfeu,  Zoroastro entre outros. Referências helenísticas mais tardias citavam também com preeminência 3 astrónomos e astrólogos: Kiddinu (Kidenas), Sudines e Naburianos.

Apesar de a rivalidade entre os  reinos selêucida e Ptolemaico, tenha levado a atribuir a origem das técnicas astrológicas ora aos egípcios ora aos babilónios (chamados caldeus) o que sabemos   é que, no séc. II antes de Cristo  as técnicas astrológicas incluíam uma mistura de conceitos que incluíam os calendários egípcios, teorias religiosas, hermetismo, a matemática sagrada de Pitágoras e a filosofia estoica e platónica, revelando deste modo um «caldo» cultural diverso que se foi homogeneizando através dos séculos num corpo teórico. Ptolomeu, (séc. II da era Cristã) , astrónomo, astrólogo e geógrafo grego influenciou decisivamente a prática da astrologia nos tempos antigos e a sua visão do cosmos manteve-se dominante até ao séc. XVII da nossa era.

Para Ptolomeu, a astrologia era uma ciência natural. Thrasyllus, que viveu no séc. I da era cristã e pertencia à academia platónica,  foi astrólogo do imperador Tibério e também praticante de Numerologia. Outros autores célebres do neoplatonismo como Proclo, Jâmblico e Porfírio, foram praticantes da Astrologia.

Convém entretanto lembrar que, na época, a prática da astrologia se integrava na Filosofia e que os astrólogos eram simultaneamente filósofos. O objetivo da Astrologia era, na altura, compreender de forma científica e rigorosa o impacto do destino na vida humana.

Noção de Destino

No mundo antigo, os saberes da filosofia, astronomia. astrologia, estavam ligados inexoravelmente a um saber iniciático – os mistérios- que era também religioso. Acreditava-se no «destino» (Moira) como uma determinação causal de efeitos «programados» para a vida de cada ser no universo  e, inicialmente, a  «sorte» (Tukhê)  era vista como significando causas pouco claras, mas em que prevalecia  o princípio cósmico da justiça , princípio esse que existia , segundo os primeiros pensadores gregos, antes da existência dos próprios deuses. Estes podem «ver» qual o destino futuro de um ser mas não podem transgredi-lo. Tanto os Deuses como a Natureza e todos os seres que nela habitam estão sujeitos a esta lei cósmica da Justiça universal .

Platão, na sua obra Timeu 40c-d revela ter conhecimento da astrologia como «arte de adivinhação pelas estrelas» e considera que esta  não deve ser praticada sem o auxílio de cálculos matemáticos e um «modelo dos céus». Parece haver evidências de que Platão conhecia a astrologia babilónica, tal como esta se terá desenvolvido na prática de elaboração de horóscopos no séc. V antes de Cristo. Embora não tenha dado grande importância às «artes divinatórias», preferindo a adivinhação através da profecia, na qual o «profeta» entrava em transe, Platão considerava importante o estudo da Astronomia para fins da «piedade astral» (que dava conta de uma ordem divina, representada pela hierarquia dos deuses). Em obras como  Timeu e Fedro, Platão fala da «Necessidade» como a lei fundamental que move o cosmos. No Fedro , ao referir a «lei do destino» (das almas) Platão faz referência ao caminho de libertação da roda da necessidade, através da prática do Bem e da Virtude que permite sair do ciclo de reincarnações da alma. Platão atribui igualmente  uma alma a cada planeta, afirmando que esta existe antes da criação de todas as coisas e atribui o movimento dos corpos celestes à inteligência divina (nous). Platão considerou igualmente que o movimento dos planetas obedece, não só a uma racionalidade ou princípio de inteligência mas possui também uma regularidade própria e cíclica, estudada pela Astronomia. Sustenta também a ideia de que os seres planetários são deuses que intervêm no destino humano. Autores posteriores como Antíoco de Askalon. defenderam a existência de uma alma do mundo que governa tanto os corpos celestes como as coisas que, na Terra afetam o destino humano. O seu discípulo Varro defendeu que os céus são povoados por almas formando uma hierarquia conforme os vários elementos: éter. Ar, Água e Terra, sendo este último o mais inferior. Os platónicos acabaram por identficar os planetas com os deuses do panteão grego (mais tarde romano) tal como haviam feito os babilónios anteriormente.

Nos escritos de Homero, Hesíodo e Platão (República) descrevia-se a aparência dos deuses planetários como segue: Júpiter era brilhante, Mercúrio era cintilante, Marte era fogoso (de fogo), Vénus era a brilhante estrela da manhã (masculino) e estrela da tarde (feminino). Na correspondência com os deuses, Júpiter era Zeus, (deus Marduk na astrologia babilónia), Vénus passou a ser Afrodite (Ishtar na astrologia babilónia); Ares passou a ser  Marte, o deus da destruição (Nergal na astrologia babilónia); Hermes era Mercúrio (Nabu na astrologia babilónia); Kronos passou a ser Saturno (Ninib na astrologia babilónia) e Selene passou a representar a Lua (Sin na astrologia babilónia). No que se refere ao Sol, várias divindades possuem características solares: o próprio Zeus, Apolo, Atenas, Hélios.

Platão não atribuiu aos deuses planetários o controlo direto sobre o destino humano. Os astrólogos helenísticos posteriores quiseram, no entanto, responder à questão «qual é a influência que as estrelas têm sobre a vida do ser humano na terra e que aspetos da vida humana e da alma estão sujeitos ao «destino».

O destino, por sua vez estava ligado ao conceito de causalidade, tanto no plano físico como moral e racional. Corresponde à «ordem natural das coisas».

Os estoicos distinguiam entre «destino» (heimarmené) e necessidade (anankê) sendo que esta última corresponde ao conjunto dos princípios internos de um ser que  apenas é o que é, na medida em que um conjunto de causas contribuem para que ele o seja. Esta necessidade corresponde à «natureza» desse ser e não pode ser mudada pois isso significaria alterar o que esse ser é. Mas o «destino» corresponde a uma cadeia causal de eventos que se originou num determinado ponto e foi avançando em termos de causa e efeito. A natureza do ser  humano inclui a racionalidade e a capacidade de fazer escolhas, decidir e agir e isso também tem consequências no mundo e nos outros seres, bem como em si próprio. Por isso, o «destino» também inclui causas internas que abrangem a natureza do ser humano.  É por esta razão que, no caso do homem, o destino não se refere apenas às causas externas que o afetam mas inclui também os efeitos das suas próprias decisões e ações.  Deste modo a «virtude» do ser humano ou a falta dela contribuem para gerar o seu destino.

Os estoicos consideravam que o ser humano ao nascer tem potencialidades que podem incliná-lo para o bem e para a virtude, pois é um ser racional e com potencial moral e pode, pela educação, desenvolver esse potencial aprendendo a evitar as más influências à sua volta. Mesmo que nasça com a propensão para desenvolver um mau caráter, pode mudar isso, pelo próprio esforço e adquirir um novo caráter através da aprendizagem, conseguindo, desse modo, influenciar o seu destino pois o caráter de uma pessoa tem direta influência no seu agir (bom ou mau). O cultivo deste bom caráter e o treino da mente através da aquisição do conhecimento conduz, segundo esta conceção, à natural aceitação dos eventos que são fruto do plano cósmico e da racionalidade inerente ao cosmos que tende para a Harmonia. Segundo um destes autores, Gellius, a falta de cultura conduz aos erros que levam a pessoa a revoltar-se contra o destino.

O sacerdote Berossus (séc. III antes de Cristo) fundou na ilha de Cós uma escola de astronomia e astrologia, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da astrologia helenística. Alguns investigadores atuais afirmam que outro babilónio Kidinnu, teve mesmo uma teoria sobre a precessão dos equinócios, anterior à de Hiparco. A precessão dos equinócios deve-se a um  pequeno desvio na rotação do eixo da Terra que, ciclicamente, desloca o ponto vernal  através das estrelas. Esta precessão está na base da diferença entre o Zodíaco Sideral e o Zodíaco tropical, como referimos várias vezes. Aceitou-se assim que havia uma recorrência cíclica do Cosmos, que passaria deste modo por vários ciclos ou «idades»: idade do ouro, idade da prata, idade do bronze, idade do ferro. Cada idade terminaria através do fogo e as almas que tinham vivido nesse ciclo retornariam a habitar o cosmos no novo ciclo ou idade. Astrologicamente, o final de cada «idade» correspondia ao 1º grau do signo Leão. Segundo estas teorias, o Sol e a Lua não são destruídos no final de cada ciclo, permanecendo as suas sementes no seio de Zeus, embora  os seus corpos físicos desapareçam.

Possidónio, um neoplatónico do séc. I antes de Cristo contribuiu com um conceito importante para a astrologia helenística, o conceito de «simpatia cósmica», segundo o qual os signos (e os planetas e estrelas) têm ligação com os eventos futuros, embora não sejam a sua causa direta. Este filósofo e astrónomo, interessado também pela meteorologia foi, segundo se pensa, o primeiro a investigar a relação entre as marés e as fases da Lua. O conceito de simpatia cósmica permitiu efetuar associações entre signos, planetas e todas as coisas.

A Astrologia helenística criou ainda um novo conceito, não presente na astrologia babilónia, o das das «duas forças: uma ativa e outra passiva» atribuídas aos 4 elementos. Esta ideia é conhecida como o princípio de Chyissípus. O fogo e  o ar eram considerados ativos e a água e a terra eram considerados passivos. Os astrólogos posteriores atribuíram estes elementos aos signos do zodíaco bem como outras qualidades dinâmicas,  de modo que, com o contributo dos pitagóricos e neoplatónicos, a astrologia tornou-se um corpo sistemático   e matemático.

Baseados na relação de movimento harmónico entre os corpos celestes e tendo em conta uma lista de fatores como a rapidez/lentidão do movimento dos planetas, a ordem e simetria, figurações, posições, intervalos, poderes, os astrólogos helenísticos constituíram um sistema de avaliação das forças e qualidades dos planetas que serviram de base ás técnicas de previsão e formulação de juízos sobre os eventos. Os períodos temporais dos planetas referiam-se ao período de duração em que um planeta completava a sua órbita a partir de um ponto do Zodíaco; os intervalos mediam por ex., a distância entre planetas ou entre um planeta e um ponto culminante do horóscopo, para determinar as áreas fortes ou fracas do horóscopo. A «medida» entre planetas servia para determinar os períodos da vida  do ser humano atribuídos a cada planeta. O conceito de «número» referia-se à orientação do movimento de um planeta tal como visto da Terra, conforme era direto ou retrógrado. Os astrólogos helenistas consideravam que o movimento retrógrado ou lento antes de ficar retrógrado mostra fraqueza na expressão do planeta.  Outro conceito usado (Ptolomeu)  era o dos «poderes» dos planetas, que faziam com que estes fossem maléficos ou benéficos. Estes poderes são combinações de «calor/frio» «seco/húmido». Estes são diferentes das qualidades, substâncias ou elementos, atribuídos aos signos e à natureza dos planetas, segundo Oecellus e que são o Fogo, Ar, Terra e Água. Estes elementos eram usados para a análise do horóscopo enquanto os poderes são forças imortais, na conceção deste autor, e afetam as mudanças que ocorrem nos seres da Terra. Este autor considerava também a Lua como o plano intermédio entre a vida mortal da Terra e a imortalidade celeste.  O Sol, por sua vez, e o caminho que  ele percorre na sua orbe revela a origem da atividade que usa os «poderes» referidos para atuar nas substâncias ou elementos na Terra.

Veremos em artigos posteriores o impacto que estas e outras ideias tiveram no desenvolvimento da Astrologia.

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