Os Primeiros Astrólogos- Séculos I e II

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Continuamos a dar conta da História da Astrologia, passando em revista alguns dos primeiros astrólogos.

Thrasyllus foi um astrólogo nascido no séc. I da era cristã em Alexandria e foi o astrólogo do imperador Tibério.  Era, além disso, um erudito, tendo  escrito sobre Gramática e foi  discípulo da filosofia de Pitágoras, tendo estudado com os Pitagóricos na ilha de Rhodes. Publicou edições sobre a obra de Platão e escreveu um livro sobre a filosofia de Platão e dos Pitagóricos. Na sua visão da Astrologia, estava próximo das fontes iniciais deste saber, sendo aceite  que as tabelas que publicou remetem para os trabalhos de Nechepso e Pitosiris e Hermes Trismegistus. Costuma-se atribuir a Thrasyllus uma tabela numerológica  em que se estabelecem associações  zodiacais com os números. O seu trabalho é visto como uma mistura entre os elementos herméticos e pitagóricos.

Através destas influências, surgiu nos primórdios da astrologia a ideia de que os planetas são seres dotados de alma e o mundo celeste (supralunar na designação antiga) influencia decisivamente  o que acontece na Terra (mundo sublunar). Princípios como a «simpatia» referidos em artigo anterior e   o determinismo estoico que, apesar de implicar a ideia de destino não impede a existência de uma causalidade iniciada com as escolhas do ser humano que também elas determinam «o que lhe acontece», forneceram algumas bases fundamentais que justificam a capacidade de previsão da Astrologia.

Um dos maiores vultos da cultura antiga foi Plutarco. Viveu na segunda metade do século I da era cristã e foi um erudito com conhecimento da filosofia de Platão e Aristóteles e sofreu a influência dos estoicos e pitagóricos, para além de ter estudado meticulosamente as tradições persas e egípcias. Embora Plutarco não tenha contribuído diretamente para o desenvolvimento das técnicas astrológicas, foi um dos responsáveis pelo aumento da popularidade da Astrologia nos primeiros 3 séculos da era cristã. Plutarco conhecia a astrologia e usava alguns dos seus conceitos no seu pensamento filosófico. Como sacerdote de Apolo, embora tenha resistido a identificar linearmente o Sol com a expressão do Deus único, usou as conceções de alguns astrólogos do tempo para afirmar que o sol é uma cópia inteligível do Deus único Invisível aos sentidos. Ligou então o sol com o conceito de «nous» (intelecto divino) que considerou ser o «coração do cosmos» e associou a Lua com a «alma do cosmos» correspondendo ao «baço» do organismo cósmico enquanto a Terra era vista como sendo «os  intestinos do cosmos». O macrocosmos era visto assim como uma figura representada analogicamente como semelhante à do corpo humano, com todos os «órgãos» que existem no corpo humano representados por realidades cósmicas específicas. O homem era visto como um «microcosmos» em tudo semelhante ao organismo do universo mas infinitamente muito mais pequeno. Repetia-se assim a máxima hermética «Assim como é em cima é em baixo».

Para explicar a «imperfeição» nos seres humanos e no mundo,  Plutarco adotou a ideia defendida por Platão em As Leis de que há duas almas do mundo, uma benéfica e outra maléfica e afirmou que esta última é responsável pelo movimento irracional que se observa no mundo terrestre. Esta alma maléfica, como dissemos em outro artigo, não foi fruto do pecado, pois já existia antes da criação do ser humano e não é puramente maléfica pois é uma mistura entre influências benéficas e maléficas e é a responsável pela existência do mal no mundo terrestre. Assim, devido à existência destas duas almas e à sua influência  no mundo terreno, geram-se, segundo Plutarco, duas forças que operam na Terra e que dão origem a dois caminhos para as almas: o caminho da mão direita, que segue uma orientação em frente (bem) e o caminho da  mão esquerda que segue para trás (mal).

Para Plutarco as almas humanas são microcosmos da alma universal  como Platão tinha afirmado no Timeu (30 b). E, como estas sofrem a tensão entre a «alma boa» e a «alma má»  a alma de cada ser humano sente igualmente essa tensão. Por isso a alma humana que vive na terra é uma mistura entre destino (heimarmené), sorte (Tukhê) e livre escolha (eph’ hemin). A parte da alma que é dirigida pelas forças de tensão é, segundo Plutarco a alma irracional que Platão tinha comparado, no Timeu (42 d-e) a ‘jovens deuses’ dirigindo a alma. Para além disto, Plutarco afirmava existirem 4 forças cósmicas, de que falámos no artigo referido atrás.

Vettius Valens de Antioquia escreveu no séc. II uma obra que se tornou importante: Antollogiarum na qual constam fragmentos de autores mais antigos como Nechepso e Critodemos, além de ter publicado uma série de horóscopos,  que são uma excelente fonte de estudo astrológico e astronómico. É considerado uma das fontes mais importantes da astrologia helenística. Na sua obra apresenta pormenores de práticas e de técnicas astrológicas que não existem em outras fontes. Tendo viajado muito, apresenta uma variedade de conceções regionais sobre as práticas astrológicas que colheu ao aprender com muitos outros astrólogos. Afirma também na sua obra que testou muitos métodos diferentes e faz juízos sobre eles e a sua eficácia na previsão.

Filosoficamente, Valens é estoico e aceita os pressupostos desta corrente para justificar a Astrologia. Para Valens, o que está em nosso poder (eph’ hemin) refere-se ao modo como nos adaptamos ao destino pelas nossas escolhas e vivemos em harmonia com ele (de nada vale revoltar-se contra o que não podemos mudar). Para este astrólogo, não podemos mudar a parte do destino que é imutável mas podemos controlar o modo como desempenhamos os papéis que teremos que encarnar na vida terrena. Nas suas conceções está portanto implícito que podemos fazer escolhas que se opõem ao destino e a crença de que fazer isso é eticamente indesejável pois só aumentará a força do destino futuro sobre cada um. Aceitar o destino que cabe a cada um é por isso um passo fundamental em termos da vida moral, segundo Valens. Para este astrólogo a astrologia era vista como sendo uma prática religiosa ou sagrada e os conhecimentos astrológicos eram por ele considerados como devendo ser mantidos secretos perante os que não tinham instrução ou desenvolvimento moral para os entender e usar de forma virtuosa.

Valens era, no entanto, um fatalista. Para ele, os «decretos» do destino eram imutáveis e o caminho moral consistia em adaptar-se e aceitar com calma e serenidade na alma (ataraxia) tanto as coisas boas como as coisas más que o destino traz. Para este autor, nenhum sacrifício ou ritual pode alterar o destino expresso na carta de nascimento.

Mas, apesar destes vultos representativos da Astrologia do séc. II, esta época também assistiu aos céticos que apresentavam razões éticas e morais para rejeitar a astrologia. Alguns céticos rejeitavam as capacidades reais de previsão da astrologia devido à impossibilidade de  observação exata das condições de nascimento; outros argumentavam que há muitas pessoas que nascem ao mesmo tempo e têm destinos diferentes. Alguns que nascem em diferentes momentos e locais morrem ao mesmo tempo como acontece nas catástrofes naturais; os animais que nascem ao mesmo tempo e nas mesmas condições deveriam ter o mesmo destino ( e não têm); a existência de diferentes culturas e costumes ou valores é incompatível com o fatalismo astrológico. Estas teses adiantadas pelos céticos desde o séc. II a. C. conviveram, tal como hoje, com o desenvolvimento da Astrologia e da sua prática ao longo dos tempos e haviam de subsistir também por toda a Idade Média.

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