Primeiros Astrólogos- Hermetismo e Gnosticismo

 

Nos primeiros tempos da Astrologia as ideias filosóficas e princípios metafísicos foram fundamentais para contextualizar as técnicas astrológicas.  Destas, destacam-se as atribuídas a Hermes Trismegisto e aos Gnósticos. Assim, fazemos uma breve síntese do Hermetismo e Gnosticismo. Neste artigo escrevemos sobre os primeiros astrólogos e a influência do Hermetismo e Gnosticismo.

O Destino (Heimarmenê) tinha um papel importante nas teorias ligadas ao Hermetismo. Este apareceu em época posterior à dos textos em que as técnicas astrológicas e astronómicas apareceram pela primeira vez.

Para esta corrente, a astrologia era vista como o saber acerca do destino a que parte mortal da alma humana está sujeita no nascimento. Para os  pensadores herméticos, as estrelas e os planetas são forças  que limitam a alma encarnada e dos quais a alma, por natureza divina na sua parte imortal, precisa de se libertar.

A alma é divina na sua essência, elevando-se acima do Cosmos mas, na Terra, é limitada ou «oprimida» pelos poderes planetários que, por sua vez, estão ao serviço do Destino e da Necessidade. E estes subordinam-se à Providência Divina (Pronoia).

Segundo o texto hermético Pimandro Deus criou o homem à sua imagem mas criou igualmente um Deus Criador (Demiurgo) que, por sua vez, criou 7 administradores- os planetas-  cujo governo constitui o destino.

A alma humana tem uma natureza dupla: a sua parte imortal está acima do plano cósmico no qual os planetas governam, não estando, por isso, submetida ao destino; mas a sua parte mortal está totalmente submetida aos poderes planetários.

A parte mortal do ser humano partilha uma porção da natureza de cada um dos planetas. Na morte, segundo este texto, quando a alma reconhece a sua parte imortal, o seu divino self ascende, libertando gradualmente os componentes do seu ser mortal: o corpo, que é dado para a dissolução;

o caráter (Êthos) é dado para o daimon (significa «espírito); a seguir atravessa  cada uma das 7  zonas planetárias onde deixa ficar as características astrológicas negativas associadas a cada planeta; ao chegar à 8ª zona a alma «fecha-se no seu próprio ser» ; nos planos superiores a estes a alma é deificada em Deus.

implicitamente depreende-se que é a alma imortal que é assim glorificada.  Alguns textos gnósticos referem que a alma é deificada na 10ª zona do plano de ascensão da alma . Assim, a 8ª zona é a fronteira, no plano espiritual, para a alma mortal  mas a alma imortal está acima dos condicionalismos deste plano astrológico.

Para estas correntes a astrologia mostra deste modo o destino que afeta a vida e o temperamento do nativo durante a existência mortal. Mas não tem poder sobre a alma imortal.

Um outro texto hermético, o «Sermão Secreto da Montanha» atribuído a Hermes to Tat (corpus Hermeticum livro XIII) afirma que o Zodíaco é responsável por criar 12 paixões ou tormentos  para testar os seres humanos.

Estes podem ser superados através de 10 poderes de Deus, tais como o autocontrole, a alegria e a luz. Em outros escritos herméticos afirma-se que o Zodíaco dá a  vida aos animais inferiores, enquanto cada planeta contribui com uma parte da sua natureza para o ser humano, dando qualidades boas e más de acordo com o seu próprio temperamento astrológico.

Num outro texto importante dos escritos herméticos- Discursos de Hermes a Tat-  discutem-se os 36 decanatos (Decans)  conceito cuja origem remonta aos egípcios e à sua religião e que a astrologia helenística incorporou.

Os decans eram considerados ,inicialmente, deuses guardiões cuja morada se situa acima do zodíaco e governam seres servidores e seres soldados que residem no éter (aither); esta tradição afirma que os Decans têm poder sobre eventos coletivos como tremores de terra, fomes, rebeliões políticas que afetam muitos. Segundo este texto, governam os próprios planetas e semeiam na Terra bons e maus espíritos.

Este saber hermético  da antiguidade não era, no entanto, fatalista e criticou asperamente o fatalismo dos estoicos. A sua intenção era ajudar o ser humano a elevar-se acima do destino.

Porém, consideravam que só alguns seriam capazes de o conseguir devido à realidade de, na sua opinião, a maioria dos seres humanos estar inclinada para o mal  e não ter consciência do seu próprio contributo para a quantidade de mal que existe no mundo terreno.

Entre os Gnósticos houve contributos importantes para compreender a natureza da astrologia. Segundo consta, usaram largamente a numerologia herdada de Pitágoras e o simbolismo astrológico e dividiram o mundo em 12 regiões usando a astro-geografia.

Pensa-se que usaram uma tabela de astro-numerologia semelhante à que foi encontrada  em  Teukros na Babilónia. Phibionites e outros fizeram corresponder cada grau do Zodíaco a um certo espírito (daimon) divino ou demónico. Atribuíram igualmente a cada grau do Zodíaco a regência de um planeta.

Uma compilação organizada por Paulo de Alexandria refere os métodos que os astrólogos  usavam para associar  cada grau do Zodíaco a um dado planeta. Os gnósticos viam cada grau do Zodíaco como um ser que fazia o «trabalho sujo» dos planetas.

Os planetas eram por sua vez governados por seres superiores a eles na hierarquia celeste, como os seres agrupados em 8, em 10 e em 12 até chegar ao criador (Demiurgo) chamado Ialdabaoth (que, astrologicamente, é Saturno).

Havia porém muitas seitas gnósticas e certamente nem todas usavam estes princípios da mesma forma mas todos atribuíram a regência das divisões do Zodíaco a um dado planeta pois foi a partir dessa associação que se começou a determinar a força de um planeta e a sua dignidade.

Comum a todos estava, porem ,a ideia de que o conhecimento astrológico, ao contrário do que defendiam os estoicos , tinha por objetivo fundamental ultrapassar as foças do destino elevando-se acima destas.

No século II da Era Cristã surgiu um texto chamado Oráculos Caldeus que partilha as conceções dos herméticos e gnósticos mas acrescenta que as forças divinas que estão acima da influência do Zodíaco  são separadas por Hécate, deusa filha de titãs que rege a noite, a Lua, a magia e feitiçaria, e tem governo sobre os céus, mar e terra.

Governa o destino. Este é considerado como uma força da Natureza e governa a parte irracional da alma humana. Porém, este texto afirma que é possível o esforço humano para purificar a alma e o corpo usando a alma racional  e esta purificação permite a ascensão da alma para o plano superior da alma imortal e de Deus.

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