Primeiros Astrólogos- Influência Neoplatónica

estátua de astrólogo helenistico

 

Continuamos a seguir a origem das ideias que influenciaram e influenciam as teorias astrológicas, traçando o percurso da História da Astrologia. Conhecemos essas ideias a partir da sua relação com muitos dos filósofos da antiguidade helenística. Falamos hoje  dos primeiros astrólogos e da influência neoplatónica .

Numenios viveu no séc. II da era cristã e professava a teoria defendida pela cosmologia dos  autores gnósticos e herméticos,  de que a alma  humana descia  através do Cosmos pelo portal que era o signo Caranguejo. Quando isto acontecia, perdia a memória da sua vida divina e adquiria as qualidades dos planetas de acordo com a sua posição no momento do nascimento.

Segundo esta conceção, as qualidades que os planetas transmitem à alma, no momento em que esta inicia o seu percurso terreno, dependem da distância a que se encontram do plano divino.

Reconhece -se assim que os planetas funcionam  em frequências diferentes, ou em «oitavas» diferentes: Saturno, por ex., no plano mais elevado, permite a inteligência e o raciocínio, enquanto a  Lua, no plano mais afastado, contribui para o crescimento do corpo físico.

Quando a alma , no processo da morte, ascende a cada uma das esferas dos planetas, juízes colocados em cada uma verificam o grau de pureza ou virtude em que se encontra e, se considerarem que não atingiu o grau de espiritualidade necessário, a alma regressa ao Hades, situado acima das águas entre o céu e a Terra e reencarna novamente durante um período que pode ser muito longo, até que, ao ascender, a sua purificação seja total  e se encontre no estado da «virtude», tal como tinha sido referido por Platão no mito de Er, (República 10, 614-621).

Aceita-se deste modo que a ascensão da alma e a sua descida novamente, uma vez após outra ao plano terrestre, depende das ações do indivíduo em termos morais. Nem sempre  os que professavam esta conceção aceitaram a Astrologia, devido ao fatalismo professado por alguns dos seus praticantes.

Plotino, (séc. III da era cristã) foi  um dos  filósofos mais eminentes do neoplatonismo e argumentou contra a Astrologia. Rejeitou a ideia de que os corpos celestes e as estrelas governem tudo o que acontece na terra e recusou o fatalismo.

Entre os seus argumentos está o de que a educação e a influência dos pais é mais forte do que a influência das estrelas; a constatação de que pessoas nascidas ao mesmo tempo deviam ter o mesmo destino mas não têm. Aceita, porém, que os planetas podem ser usados para «prever o futuro» mas  afirma que não o causam, apenas permitem «adivinhá-lo».

Na obra Enéadas, 2.3, Plotino mostra conhecer as técnicas astrológicas, ao mesmo tempo que afirma ser absurdo que os planetas tenham influência uns sobre os outros através dos aspetos ou que tenham relações de «amizade» e «inimizade» quando colocados em certas posições.

Sobre a natureza dos planetas, aceita que estes têm uma  alma pois são deuses mas rejeita que alguns sejam maléficos (como Marte ou Saturno).

Rejeita igualmente  que os planetas tenham ação sobe o destino humano pois os seres humanos também não afetam a felicidade dos deuses (logo, porque haveriam estes de se ocupar dos humanos?) . Afirma ainda que a virtude é dada por Deus e que o mal é fruto de circunstâncias externas que resultam de a alma ser mergulhada na matéria.

Em suma, Plotino rejeita a Astrologia nas suas teorias fundamentais, aceitando apenas que os planetas podem ser usados para adivinhação porque fazem parte do corpo cósmico e contribuem para a harmonia do todo.

O discípulo mais conhecido de Plotino, Porfírio, (nasceu no séc. III e morreu no início do séc. IV), teve opinião bem diferente da Astrologia, tendo escrito um livro, hoje perdido, onde expôs as ideias (e por vezes copiou do autor) de Antiochus de Atenas. que viveu no séc. II.

Nos séculos III e IV a influência de Antiochus era ainda maior do que a de Ptolomeu. Acredita-se que Porfírio terá encontrado o trabalho de Antiochus quando estudou em Atenas. A importância de Porfírio consiste em que ele tentou harmonizar a crença platónica de que a alma é livre da matéria em essência com a sua crença na Astrologia.

Fazendo parte da comunidade pitagórica, Porfírio era vegetariano, afirmando que esse modo de vida contribuía para desligar a alma do corpo e para promover a virtude e a vida espiritual.

Aceita os princípios da Astrologia definidos anteriormente pelos primeiros astrólogos, acredita que os seres espirituais, tanto benéficos  como maléficos calculam os movimentos das estrelas e planetas para prever os «decretos do destino» e afirma ( Stobeus, 2.8 39-42) que a livre escolha dos seres humanos é compatível com a Astrologia. Assim, Porfírio comenta o mito de Er constante da República de Platão, afirmando que, antes de descer para o mundo terreno, a alma é livre de escolher o seu espírito guia.

Uma vez encarnada na Terra, fica sujeita ao destino e à necessidade de acordo com a vida que a  própria alma escolheu. Porfírio defende esta interpretação afirmando que ela está de acordo com os astrólogos egípcios que afirmavam que o signo Ascendente e as configurações do mapa de nascimento exprimem a vida que a alma escolheu antes de encarnar na Terra.

Porfírio escreveu um livro  Introdução ao Tetrabiblos de Ptolomeu (para saber mais sobre este leia o artigo aqui) onde  explica pormenorizadamente as técnicas astrológicas usadas por Ptolomeu e outras que este rejeitou, afirmando que a explicação clara e simples destas técnicas tornaria mais acessível a todos a linguagem astrológica. Pensa-se que este livro pode também ter sido a sua resposta às críticas que Plotino fez à Astrologia.

Porfírio considerava que, quando a pessoa conseguia saber qual ao seu espírito guia,  indicado por um planeta, que podia ser conhecido através  da aplicação de um conjunto de regras,(planeta designado por oikodespotês,) no estudo da carta de nascimento, pode ficar livre do destino.

No livro atrás citado, Porfírio escreveu um longo capítulo sobre o método de encontrar este planeta e de o distinguir de outros planetas regentes. Autores posteriores como Jâmblico (séc. III e IV da era cristã) também escreveram sobre isto. Falaremos deste autor no próximo artigo.

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