Primeiros Astrólogos -Séculos IV e V

Continuamos a traçar algumas das influências que mais se fizeram sentir na Astrologia dos primeiros tempos e que deixaram marcas na discussão do valor e da natureza da Astrologia até hoje. No passado, a Filosofia e a Astrologia estiveram entrelaçadas, nos aspetos teóricos.

Conhecer brevemente algumas dessas ideias partilhadas esclarece muitos dos conceitos de usamos hoje nas práticas astrológicas sem, no entanto, termos consciência clara da sua origem e história. Este artigo aborda especificamente alguns dos primeiros astrólogos dos séculos IV e V da nossa era.

Jâmblico (séc. III e IV da era cristã)  concebeu a existência de uma hierarquia imensa de seres , tanto no plano divino como humano e demónico.  Para este autor, a astrologia praticada na sua época, apesar de ter valor, na sua opinião estava demasiado preocupada com o plano material da vida e descurava o plano espiritual.

Considerava que os signos do Zodíaco  recebem o seu poder do Sol  e este, por sua vez, simboliza o Deus incorpóreo, transcendente a todas as coisas. Acreditava, porém, que a divindade penetrava todas as coisas, mesmo no plano terreno.

Para Jâmblico, a astrologia peca por ser demasiado «intelectual» quando analisa a carta natal; ele afirmava que cada indivíduo pode elevar-se, através de exercícios teúrgicos , acima da necessidade e do destino, tal como refere na obra De mysteriis.

Jâmblico considera que a questão, lançada por Porfírio, de encontrar o seu «espírito guardião» não pode ser respondida pela astrologia, porque esta lida com o destino e este só se inicia após o nascimento na Terra, enquanto que o espírito guia de cada um é atribuído antes da descida da alma num corpo físico.

Mas Jâmblico admite que a astrologia é uma ciência verdadeira embora limitada pelas capacidades de compreensão do ser humano.

Não sendo um verdadeiro astrólogo mas alguém que desenvolveu opinião sobre a astrologia, Jâmblico mantém-se mais perto da corrente teúrgica que acredita na capacidade de alguns seres especiais poderem  produzir milagres e terem uma compreensão superior da realidade por serem «iniciados» na sabedoria ancestral.

Julius Firmicus Maternus foi um astrólogo siciliano, altamente reputado entre os estudiosos da astrologia antiga e uma das principais referências da astrologia dos primeiros tempos.  Viveu no séc. IV e escreveu uma obra em 8 livros, Matheseos.

Converteu-se posteriormente ao cristianismo, mas não deixou, por isso, de se mostrar apaixonadamente ligado às astrologia, que considerava uma «ciência dos mistérios» e, como tal, só deveria ser revelada aos que se mostrassem merecedores.

Maternus era defensor do fatalismo  e, posteriormente á sua conversão cristã, afirmou não ter a certeza da imortalidade da alma. Mas aceitou as teses do platonismo que referimos em outro artigo  relativamente à descida e ascensão da alma.

Mudou entretanto alguns aspetos da tradição, afirmando que a alma desce para se encarnar no corpo através da esfera do Sol e ascende, após a morte, através da esfera da Lua.

Para Firmicus Maternus, a mente humana, inspirada pela Mente divina, é capaz de alcançar verdadeiro conhecimento através da astrologia, embora só conheça o destino de forma imperfeita.  Mas, quando praticada com o devido conhecimento, a astrologia  faz previsões verdadeiras.

Para este astrólogo, os planetas são os «administradores» do Deus criador e são eles que dão à alma o seu caráter e personalidade.

Referindo-se a Plotino , que argumentou contra a astrologia, defendendo que tudo depende do homem e dos seus próprios esforços para ultrapassar os azares da fortuna, Maternus lembrou que tudo o que Plotino fez para melhorar a própria saúde, incluindo mudar de clima para superar os problemas que tinha de nada lhe serviram, tendo acabado por se render ao «destino».

Maternus afirmou também a propósito a sua crença de que o destino não controla apenas o nascimento e a morte, como muitos no seu tempo afirmavam.

Um pensador  do século V, Hércules de Alexandria, apesar de ter argumentado veementemente contra  a astrologia, especialmente contra os autores que admitiam a livre escolha a par com o destino, Hércules acreditava que  o destino é uma ordem imutável e segue a justiça divina.

Para este autor, o destino é um sistema de recompensas e castigos que a alma escolhe antes de encarnar na Terra (tal como defendido por Platão no mito de Er, na obra República.) Para Hércules de Alexandria, a astrologia é incompatível com esta conceção por, na sua opinião, aceitar uma «necessidade» (destino)  totalmente impessoal e sem qualquer intenção ou escolha  por parte do indivíduo.

Os astrólogos visados por esta crítica são Manilius e Vettius Valens, que eram apoiantes do estoicismo e afirmavam que tudo o que acontece no mundo se deve a uma corrente causal  de causas físicas. Hércules de Alexandria tem uma noção bastante determinista do destino, mas baseia-o no conceito de justiça moral e divina.

E, nesta sua conceção, deixa totalmente de fora os autores que, como Jâmblico e muitos outros, nesta época, pretendem que a teurgia ou a magia podem libertar o ser humano do seu destino, revelado pela astrologia, sem respeitar o princípio básica da justiça que recompensa ou pune o indivíduo de acordo com a sua «virtude».

Proclo (séc. V)  foi um importante pensador, que presidiu à Academia Platónica em Atenas e foi uma das principais escolas filosóficas da época.  Não foi um astrólogo mas, nas sua obras de filosofia, é possível descortinar o que pensa da astrologia e da relação desta com as correntes do «fatalismo».

Proclo considerava os planetas como deuses visíveis, intermediários entre o plano sensível e o plano transcendente espiritual e inteligível.  Aceitava que os planetas influenciam, com o seu calor e luz os eventos e seres terrestres, tendo além disso regência sobre todo o mundo terrestre, incluindo as plantas e os metais.

Mas, tendo sido um teurgista, Proclo aceitava que os «decretos» do destino podiam ser mudados, pelo «conhecimento superior» e pela magia.

No próximo artigo continuaremos a falar de alguns tópicos da História da Astrologia.

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