Tradição Astrológica- Séculos V e VI

Terminamos, com este artigo, a visão geral sobre as origens da astrologia, na cultura greco-romana e a sua relação com as teorias filosóficas da época.  As técnicas astrológicas desenvolvidas neste período foram a base de todos os sistemas astrológicos que se disseminaram pelo mundo, embora fossem sofrendo, com o tempo, alterações , tanto na astrologia medieval  do ocidente como nos sistemas de astrologia que se desenvolveram na índia, como veremos no próximo artigo. No século VI a tradição astrológica encontrava-se estabelecida.

Apesar de ter havido muitas diferenças filosóficas entre os astrólogos helenísticos de que temos vindo a falar, nota-se, no vasto conjunto de textos que ficaram desses tempos, que os vários autores usavam uma terminologia semelhante e técnicas semelhantes, remetendo portanto para o facto de que todos tinham por referência fontes de conhecimento astrológico comuns, ou seja, uma mesma tradição astrológica.

Firmicus Maternus, do séc. V, atribuía a origem da ciência astrológica a Hermes Trismegisto. Este autor forma uma genealogia da História da Astrologia a partir de Hermes, afirmando que este passou estes conhecimentos a Asclépio , considerou que  Nechepso e Petosíris explicaram esses conhecimentos e Abram, Orfeu e Critodemus ,por sua vez, continuaram esta tradição. É claro que, como no presente, cada autor pode ter acrescentado algo novo a este saber mas, no essencial, as teorias remontam aos primeiros fundadores da astrologia o que mostra que existia uma tradição astrológica  comum partilhada por inúmeros astrólogos.

Tendo em conta o que foi referido, é geralmente aceite que os astrólogos helenísticos tardios tinham uma visão de que o  conjunto do saber astrológico instituído devia ser conservado e não precisava de grandes alterações. Isto acontece porque se acreditava que os primeiros fundadores da astrologia eram seres sábios, com natureza superior à do homem comum e o saber que ensinavam era sagrado e totalmente verdadeiro. Era o saber que um mestre astrólogo apenas passava aos que mostravam merecer conhecê-lo. Era considerado um sistema de sabedoria  que tinha sido revelado a alguns por inspiração divina mas  com uma natureza  rigorosamente racional. Implicava uma visão do cosmos e do lugar do ser humano nessa ordem cósmica essencial. Evidentemente que, para se tornar mais compreensível, este sistema foi, desde o séc. II antes de Cristo, articulado com as teorias filosóficas de que já falámos em artigos anteriores.  Assim, a astrologia dos primeiros tempos estava sempre associada à Filosofia da Natureza professada pelo astrólogo que a praticava. Mas, ao mesmo tempo, os astrólogos evitaram o uso do vocabulário filosófico e desenvolveram uma terminologia astrológica independente, para explicarem os seus procedimentos e técnicas.  E, ao invés de tentarem compreender o plano abstrato do ser, focaram-se na vida terrena e no plano dos eventos na terra, embora  o tivessem articulado com o plano transcendente e divino.

O saber  da Astrologia Helenística tem uma natureza sistemática organizada e forma um sistema que pode ser traduzido em práticas astrológicas de que começaremos a falar em breve, deixando aos leitores as práticas originais usadas pelos primeiros astrólogos para lerem o horóscopo e desvendarem, a partir dele, os eventos e circunstâncias do destino humano pessoal. Os astrólogos helenísticos construíram um sistema articulado de conceitos e técnicas, ramificando-se pelos vários aspetos abrangidos pela análise astrológica e possuindo uma coerência própria, pelo que os seus conceitos podem facilmente ser usados de acordo com os princípios , atribuições e aplicações que lhes foram dados originalmente.

Por exemplo, o sistema de casas usado ainda hoje na astrologia Jyotish, é herdado dos astrólogos helenísticos. Estes estavam conscientes do movimento de inclinação da Terra  e sabiam  que a eclítica forma muitas vezes ângulos inferiores a 90º no Ascendente e Meio do Céu, numa dada carta natal. Mas a escolha de um signo inteiro/uma casa foi uma opção dos astrólogos dos séculos V e VI como se vê nas obras de Vallens, Maternus, Paulo Alexandrinus, que estavam bem cientes da declinação terrestre. Mas,  para estes autores, a relação «casa/signo inteiro» mostra áreas da vida enquanto que o Ascender e culminar  dos ângulos do horóscopo mostram a força relativa dos signos e planetas. Do seu trabalho e técnicas astrológicas surgiram as atuais abordagens  e significados das casas do horóscopo e relação com os planetas, como veremos em breve ao explicitar as técnicas da astrologia helenística.

Em meados do séc. VI a astrologia floresceu no império persa e estendeu-se posteriormente pelo mundo árabe, que também salvou as obras de filosofia dos gregos, mantendo-as durante os tempos medievais e salvando-as da destruição , tendo sido «redescobertas» no apogeu do século XII e  e séculos posteriores, também no mundo ocidental.

No próximo artigo veremos as origens da astrologia da Índia a partir da astrologia helenística.