Transmissão da Astrologia Helenística para a Índia

Durante muito tempo especulou-se sobre a relação entre a Astrologia Helenística oriunda da cultura greco-romana e a Astrologia da Índia. Hoje sabe-se que houve efetivamente uma transmissão do saber astrológico  helenístico para a Índia.

Segundo investigadores como Buché-Leclerq,  que afirmou, no livro publicado no final do séc. XIX L’Astrologie Grec que a Astrologia Helenística chegou à Índia no séc. II da era cristã, a Astrologia Helenística deu um forte contributo para o desenvolvimento da astrologia na Índia. Prova disso é o texto publicado no séc. IV, segundo estimam os investigadores, e cujo nome Yavanajataka remete para os gregos, pois esse é o significado de yavana: Yavanajataka significa «técnicas do horóscopo dos gregos».  Este livro é hoje considerado  a prova de que a Astrologia Helenística esteve também na base da Astrologia da Índia, embora esta tenha recebido, tal como a própria Astrologia Helenística, contributos de outros povos e culturas e tenha também contribuído com os seus próprios sábios para o desenvolvimento do sistema da Astrologia Jyotish.

O investigador David Pingree, cuja tese de doutoramento teve por objeto o Yavanajataka, confirmou, através desta investigação,  esta tese; comparou as teorias astrológicas helenísticas com as do texto Yavanajataka e constatou duas coisas: este livro foi a principal forma de transmissão das técnicas e conhecimentos astrológicos helenísticos para a Índia e, em sengo lugar, constatou que uma boa parte das técnicas astrológicas usadas para construir e analisar horóscopos na Índia foram derivadas das técnicas da astrologia helenística. Este texto é a fonte mais recuada de astrologia na Índia e, segundo este investigador, foi a base dos vários sistemas astrológicos da Índia. Proficiente no domínio do sânscrito e em outras línguas antigas, Pingree afirmou que o Yavanajataka foi uma tradução de um texto grego , escrito segundo crê o autor, no séc. I em Alexandria. Terá sido transportado num navio mercante no séc. II para o norte da Índia, onde existiam várias colónias gregas de comerciantes, desde as conquistas de Alexandre Magno. O texto terá sido traduzido para sânscrito por um grego, estabelecido na Índia em meados do séc. I, que se terá convertido aos costumes locais.

Em meados do séc. III, o texto foi rescrito em versos por outro grego convertido aos costumes locais, chamado Sphujidhvaja. Pingree constatou igualmente que a terminologia da Astrologia da Índia é em geral uma tradução dos termos usados em grego, para o sânscrito. Basta pensar em palavras como casa «kendra» (kentron em grego) , apoklima, panaphara (epanaphora em grego) , trikona (trigonon em grego) e muitas outras. A aplicação destes conceitos é também muito semelhante entre estas duas formas de Astrologia.

Porém,  a Astrologia não começou na Índia com este livro, ela  também já existia na Índia antes da importação dos conceitos da Astrologia Helenística. A Astrologia praticada na Índia era uma astrologia lunar, baseada nos Nakshatras. Acredita-se que, além desta Astrologia lunar, existiam na Índia, antes de o texto yavanajataka aí ter chegado, algumas outras tradições trazidas de outras culturas de que se destaca a Mesopotâmia. A Astrologia Helenística foi, deste modo ,assimilada em conjunto com outras práticas astrológicas existentes na Índia nessa época  tendo integrado teorias por vezes díspares nesse sistema conhecido como Jyotish e dando lugar a diversas correntes e sistemas  astrológicos que se mantêm até aos dias de hoje. Mas, ao longo destes primeiros séculos, os astrólogos da Índia trabalharam o Yavanajataka , fazendo algumas alterações que começaram a marcar as diferenças da abordagem da Astrologia da Índia em relação ao ponto de partida da Astrologia Helenística. Porém, muitos consideram que a Astrologia praticada na índia ainda hoje está mais  próxima da antiga Astrologia Helenística do que  a Astrologia Ocidental de hoje, apesar de a cultura grega ser a matriz principal da cultura e ciência ocidental, o que torna ainda mais relevante estudar as técnicas usadas pelos antigos astrólogos helenísticos.  E este é o propósito que nos atribuímos, ao iniciar esta rubrica sobre a História da Astrologia e a Astrologia Helenística. Pois não há como ir ás fontes primeiras deste saber arcano, para compreender as lições fundamentais de sabedoria acerca do ser humano e do seu destino, que nos são reveladas pelos sábios que as desenvolveram e transmitiram para as outras culturas.

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