As Casas do Horóscopo na Astrologia Helenística

Iniciamos hoje a escrita de uma série de artigos que procuram dar a conhecer como a astrologia antiga considerava as casas do horóscopo. Todos os sistemas astrológicos posteriores partiram destas conceções iniciais sobre este tema.

Na sua origem, a astrologia era inseparável da astronomia e os primeiros esboços teóricos tiveram por intenção a constituição de um calendário que marcasse o tempo e os ciclos vitais e também as formas como o destino (Moira, no grego) se exprimia na vida humana. É  por isso que consideramos tão interessante o artigo de Robert Schmidt  The Facets of Fate: The Rationale underlying the Hellenistic System of Houses in the Mountain Astrologer (1999-2000) . Nele o autor alude ao conceito de «alma cósmica» dos gregos que viam nas estrelas fixas e nos planetas a expressão dessa alma  do mundo ou consciência universal. Para os gregos, era certo que existe uma «ordem» que marca a harmonia da vida como um todo, e segundo o qual cada ser no universo tem «um plano», uma porção de «destino» que deve cumprir de acordo com a justiça (dike) divina. Podemos assim considerar que se trata de uma causalidade natural que distribui a cada ser e indivíduo a «devida proporção de destino» que este deve cumprir. Estas porções de destino eram, segundo a conceção de «moira» distribuídas  por cada área da vida individual e «no devido tempo». O «destino», assim entendido, é um princípio ordenador que distribui e combina, em cada área da vida individual, a «porção devida» no momento certo construindo todos os fios que tecem a globalidade da existência, num todo coerente pois cada uma das «porções» vividas está ligada a todas as outras que compõem um só destino individual e concorrem para que este se cumpra. Nesta conceção, os princípios do destino atingem todos os seres do universo, incluindo os deuses. Nenhum ser escapa à causalidade inerente à existência.

O sistema de casas do horóscopo mostra, neste sistema, a forma como o «destino» que nos é distribuído interage com as nossas ações  e áreas de vida ao longo do tempo. Para os gregos, o destino está predeterminado mas nem tudo o que nos acontece, é resultado dessa predeterminação, caso contrário, as filosofias clássicas de Platão, Sócrates e Aristóteles não teriam insistido, como fizeram, na importância da ética e do objetivo fundamental da existência como sendo «o aperfeiçoamento da alma» (Sócrates e Platão). Mais ainda, Platão foi muito claro ao afirmar que a existência presente é resultado das ações passadas do indivíduo. No sistema helenístico, o destino resultante das ações  humanas é visto no eixo da 10ª casa /4ª casa, com ênfase na 10ª casa.

Inicialmente, as casas eram vistas a partir de dois conceitos diferentes: um que correspondia ao domicílio de cada planeta: falava-se na «casa de Marte» por ex., como sendo o signo cuja regência era de Marte. Neste contexto, «casa» era associado a «espaço» concreto (topos), o lugar onde o referido planeta vive. Como cada planeta tinha um domicílio diurno e outro noturno, referente aos dois signos que rege, cada planeta domina sobre «dois lugares diferentes». Por ex., o domicílio de Marte no signo Carneiro não é o mesmo que o domicílio do mesmo planeta no signo Escorpião, seu «lugar noturno». As casas eram também designadas como as «áreas», espacialmente concebidas, da vida humana, tendo sido referenciadas 12 casas, calculadas de diferentes formas segundo o propósito  desejado. Por ex., para analisar os irmãos, os pais, a profissão, o casamento, o mapa era dividido de forma a providenciar informação sobre cada uma destas matérias. Isto pode ser visto também na Astrologia Jyotish através da divisão da carta natal das cartas divisionais.

A filosofia helenística usava o sistema de casas iguais, isto é as «casas» iniciavam-se com o signo ocupado pelo Ascendente e este era considerado todo ele como a 1ª casa . Mas, paralelamente a este sistema geral das casas do horóscopo, a astrologia helenística usava também divisões dinâmicas do horóscopo para averiguar a força de um planeta, tendo percebido que cada planeta não tinha a mesma força em todas as partes do horóscopo. Este  estudo, que pode ser observado também na Astrologia Jyotish no seu estudo das «forças» e fraquezas do horóscopo, consistia habitualmente em dividir por 3 cada ângulo do horóscopo- por ex., entre o Ascendente e a 4ª casa, entre esta e o Descendente, etc. Era tido em conta o grau do Ascendente e o grau do F. C (4ª casa) e a soma dos graus entre estes dois pontos era dividida por 3. A partir daí, verificava-se em qual das 3 porções estava um determinado planeta, seguindo-se o princípio geral de que as casas angulares são as mais fortes, as sucedentes têm força média e as cadentes são as mais fracas. Esta classificação era deste modo usada como ferramenta específica para determinar a força dos planetas numa casa.

Desde o início, deste modo, as casas foram entendidas como «lugares espaciais» pois eram o domicílio dos planetas e também, numa análise dinâmica, simbolizam áreas da vida como a profissão, o casamento, etc. A tradição astrológica dos árabes manteve esta conceção simultaneamente tópica (relativa a «lugar» ou espaço) e dinâmica, mas terá sido perdida pela astrologia posterior dos medievais.

A astrologia helenística tinha ainda outra classificação das casas, separadas em «casas boas»  e «casas más». Esta classificação referia-se simplesmente ao facto de  se considerar que os planetas nas casas referidas como «boas» produzem resultados bons, acontecendo o inverso nas «casas más».

As casas boas, segundo estas conceção, eram: 1ª, 4ª, 5ª, 7ª 10ª, 11ª. Alguns autores acrescentavam a 3ª casa às casas boas. Porquê esta classificação? Muito simplesmente devido aos aspetos que se criam entre estas casas e o Ascendente, considerado  como o ponto fundamental e central do horóscopo. Qualquer planeta nestas casas, ao formar um «aspeto»- correspondente a uma forma geométrica como quadrado, triângulo,, sextil e até oposição relaciona-se com o Ascendente e, logo, com o destino individual. Por isso, o lugar onde se posicionam (a casa onde estão) é considerada «boa». Já os planetas colocados nas restantes casas não formam aspetos com o Ascendente e, por isso são incapazes de influenciar o destino individual. O conceito de «casa má» era, deste modo, associado à capacidade que o planeta tem  – ou não- de influenciar a vida da pessoa.

Apresentamos de seguida um resumo dos significados das casas a partir dos autores helenísticos conforme o artigo citado de Robert Schmidt:

1ª casa-  vida e respiração de vida; corpo e aparência física; o comportamento de acordo com a expressão visível das qualidades da alma; lugar em que o nativo vai dos perigos e sombras para a luz e a vida (Rhetorius); irmãos (Hermes); bases da fortuna (Hermes). A astrologia medieval seguiu estes significados.

2ª casa- esta era chamada de «portão do Hades». Significa os meios de sobrevivência e subsistência, incluindo as propriedades, as posses e a sua aquisição; parcerias, rendimentos e despesas; boas expetativas. Os medievais mantiveram estes significados.

3ª casa– chamada de «deusa», «boa declinação», «lugar à sombra», «lugar entre mundos». Significa irmãos, amigos e parentes, relacionamento com hóspedes e convidados; viagens; reino ou realeza, rainha; autoridade do trabalho ou dos recursos; sonhos e devoção religiosa (Rhetorius). Os medievais acrescentaram as viagens «curtas» , ignoraram o significado de autoridade e realeza e acrescentaram cartas, mensagens e comunicação.

4ª casa-  Hermes chamava-lhe a «fundação da felicidade». Significa os pais, as circunstâncias parentais e o património; o que pertence às raízes (fundações, terras); habitação e residência (vida do lar, vida na comunidade); confinamento; retribuição (Valens); assuntos velhos, místicos, assuntos escondidos (secretos); assuntos relacionados com o pós morte; crianças (Ptolomeu e Valens); esposa (Valens); os medievais mudaram «pais» para o pai e mudaram a mãe para  10ª casa.

5ª Casa-  designada por «boa fortuna». Significava crianças; amizade e sociedade (Valens); ações benéficas (Valens). Os medievais acrescentaram romance e assuntos amorosos, prazer e diversão.

6ª Casa- Designada por «má fortuna» «declínio para a base», «retribuição», «lugar entre mundos». Significa ferimentos e acidentes, doença, fraqueza, escravos,, inimigos e as suas conspirações; vingança (Hermes); quadrúpedes (Rhetorius). A astrologia medieval retira os inimigos e transfere-os para a 7ª casa e acrescenta: mover-se de lugar para lugar, especificando que os quadrúpedes significados pela casa se referem a animais que não são montáveis (cavalos burros, etc. ficam excluídos).

7ª Casa– casamento ou união sexual: esposa; viagem para o estrangeiro; morte. A tradição medieval inclui as parcerias de todos os tipos, inclui a inimizade e hostilidade.

8ª casa- designada por «lugar de ócio». Morte, fraqueza, herança ou benefícios obtidos a partir da morte, justiça (Valens); vida e modo de vida (Hermes); os medievais acrescentam «o dinheiro dos outros».

9ª casa- chamada de «Deus», «bom declínio». Significa viagem; reis e a soberania; religião, astrologia, assuntos e práticas esotéricas, sonhos e manifestações dos deuses; comunidade e amizade (Valens); os medievais especificaram que as viagens eram de «longa distância» e transferiram a realeza e soberania para a 10ª casa.

10ª casa- ação, profissão ou ocupação; reputação; classe social, honras, privilégios e progressos; pátria; crianças; esposa e casamento; governar e liderar (Hermes); mudança e renovação (Valens); vida e alma (apenas Hermes e Maternus). Os medievais acrescentaram a mãe, provavelmente por terem lido mal uma passagem do livro III de Tetrabiblos. Esta casa era a principal para significar as crianças na época helenística.

11ª casa- Chamada de «bom espírito». Significava as esperanças e boas expetativas; presentes; amizade em especial com pessoas altamente colocadas; alianças; patrocínios, preferências, crianças; emancipação dos escravos. Os medievais mantiveram os significados.

12ª casa– chamada de «mau espírito». Significava inimigos, escravos, submissão dos escravos; quadrúpedes; perigos; doenças e ferimentos (muitas vezes fatais), viagens para o estrangeiro; tribunais de julgamento (Valens); subsistência e modo de vida (Hermes);  os medievais especificaram que os inimigos são escondidos, por oposição aos inimigos declarados  da 7ª casa. Adicionaram prisões e especificou que os quadrúpedes aqui significados são os de montaria. Não dá grande importância às viagens.

Continuaremos a escrever sobre as conceções das casas na Astrologia Helenística no próximo artigo.

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