A 7ª Casa Segundo a Astrologia Helenística

A 7ª casa segundo a Astrologia Helenística

A 7ª casa era também designada, nos tempos antigos, como a Casa do Poente (aludindo ao «lugar» onde o Sol se põe, ao anoitecer). Segundo Paulus Alexandrinus, a 7ª casa mostra a qualidade da morte, bem como os significados relacionados com os «anos dourados da velhice». Este significado advém do facto de os planetas se moverem, no sentido natural do movimento de rotação da Terra, do nascer do Sol para o pôr do sol. Como o nascer do Sol corresponde ao Ascendente, ao momento em que se dá o nascimento e que simboliza a juventude (enquanto o Meio do céu (10ª casa) simboliza a meia idade)  o Pôr do Sol representa «os anos dourados»  da velhice.  Na antiguidade as tradições religiosas do judaísmo e do zoroastrismo também viam o Pôr do Sol como símbolo da morte, daí o significado de morte atribuído a esta casa. Este significado da morte foi  também seguido pela Astrologia Jyotish, como sabemos.

A 7ª casa também significava, para os antigos, os preparativos para o casamento  e a união sexual, bem como o cônjuge. E também simbolizava as viagens para o estrangeiro. Dado que a 7ª casa é a casa oposta à 1ª, que simboliza o eu, é também a que simboliza o «não eu», ou seja, o outro ser humano e o outro país, pois a primeira casa também revela o ambiente próximo do nativo. Assim, a 7ª casa simboliza os ambientes não familiares ao nativo, os espaços estrangeiros. Simboliza longas estadias nesses países talvez porque, como refere Curtis Manwaring, para tornar familiares os espaços distantes e desconhecidos, é preciso permanecer neles por bastante tempo. Outra razão óbvia, para a antiguidade, é o facto de que, as viagens para lugares distantes, eram naturalmente muito demoradas porque os meios de transporte da época eram bastante limitados.

Como faz notar R. Schmidt, o especialista no estudo das casas na Astrologia Helenística, os medievais colocaram na 7ª casa os significados de inimigos e hostilidades (baseados provavelmente no facto de a 7ª casa ser oposta à primeira) mas na Astrologia Helenística esse significado pertence á 6ª casa ( e é também assim na Astrologia Jyotish). Foram também os medievais que adicionaram o significado da generalização de todas as parcerias, e não só o casamento, à 7ª casa, o que também é seguido pela Astrologia Jyotish. Mas os medievais não atribuíram o significado da morte à 7ª casa. Porém, a associação feita pelos astrólogos helenísticos faz todo o sentido pois esta é a casa onde o Sol se põe, ou «morre» provisoriamente, durante o período noturno e o Sol é o princípio significador da vida e força vital. Como nota  R. Schmidt, enquanto a 1ª casa simboliza o emergira partir  do útero materno e da sua «escuridão» para a luz solar, do mesmo modo, na 7ª casa o percurso é inverso e o nativo mergulha no «útero oceânico, retirando-se do plano visível da luz solar uma vez mais para a escuridão e a invisibilidade. Schmidt considera que a associação com a vida em terras estrangeiras é uma metáfora do que acabámos de dizer pois, quando alguém abandona a familiaridade do país, costumes, língua, etc., para entrar num país diferente, está também num mundo desconhecido e «às escuras», sobretudo se não conhece a língua, nem os costumes nem tem ninguém conhecido nessas paragens. É claro que a mobilidade acelerada dos nossos dias relativiza esta metáfora pois podemos deslocar-nos muito rapidamente e no espaço de pouco mais que um dia podemos estar no ponto oposto da Terra. Mas no mundo antigo sem  comunicações nem veículos que permitissem isto, ir para um país diferentes podia ser visto como ir «para um outro mundo» com todos os receios que  isso podia produzir.

Agora, quanto ao facto de a 7ª casa simbolizar o casamento e as parcerias, a pergunta porque é que esta casa simboliza a união sexual é de fácil resposta, atendendo a que os fluídos perdidos na união sexual foram vistos desde tempos muito antigos como  «uma pequena morte», perda de vitalidade e de energia. Por outro lado, a 7ª casa é a casa do «outro» e, para poder concretizar o casamento ou outra parceria qualquer, é preciso estabelecer compromissos, dar algo de si e perder algo, razão pela qual desde tempos antigos esta casa foi considerada a casa dos acordos e contratos, a casa da  justiça. Porque, quando  uma parceria não tem em conta a justiça ou não se estabelece num acordo mútuo de direitos e deveres, então é uma relação de exploração ou de servidão e essa é uma relação da 6ª casa e não da 7ª.

O eixo 1ª- 7ª casa é um eixo de desenvolvimento de consciência, como bem notou Dane Rudhyar. Da primeira à 7ª casa essa consciência apenas se dá conta episodicamente do outro, sendo consciência de si perante o outro, com as nuances que cada casa acrescenta a essa tomada de consciência. Mas, quando chega á 7ª casa, a consciência foca-se no outro, sendo por isso compreensível que astrólogos desde a antiguidade ,como Vallens, tenham afirmado que esta é a casa dos amigos. Porque é só apenas quando se tem consciência do outro que se pode realmente ter amigos. Como dizia Aristóteles «um amigo é aquele que coloca o bem do seu amigo como a sua primeira prioridade». E isto não acontece antes da experiência do outro significada  pela 7ª casa. Porque é apenas nesta que o outro surge na sua verdadeira realidade, sem ser visto como apenas uma extensão, obstáculo ou manifestação variável de si próprio. Na 6ª casa, por ex., o outro é antagonista, inimigo, ou obstáculo, é alguém que explora ou é explorado, alguém que serve ou recebe serviço; nas restantes casas  os outros são membros da família próxima e fazem todos parte do «nós» primordial. É apenas na 7ª que o outro aparece como totalmente exterior ao mundo pessoal constituído do nativo. E, por isso também, só nesta casa o casamento pode ser significado, como relação igualitária e contratual entre duas pessoas diferentes. É claro que, na antiguidade, o parceiro feminino não era visto como «igual» ao masculino, nem tinha, na antiga Grécia, os mesmos direitos que o marido.  Mas a sua linhagem era diferente, o seu «sangue» era distinto e o casamento era a união de recursos distintos, fosse qual  fosse a razão da sua realização.( e o amor não era uma delas).

Quanto aos que considerarem estranho que a mesma casa simbolize a morte e o casamento , basta lembrar como, na Grécia antiga, pátria destes significados, as mulheres choravam copiosamente no dia do casamento, que não era visto como um acontecimento alegre mas como um contrato ou acordo entre famílias e acerca do qual as expetativas não eram nada elevadas em termos pessoais, sendo antes realizado como uma obrigação social e familiar.