A 9ª Casa do Horóscopo Segundo a Astrologia Helenística

A 9ª Casa na Astrologia Helenística

Neste artigo falamos dos significados originais da 9ª casa do horóscopo, sistematizados primeiramente pelos astrólogos helenísticos.

Apesar de ser uma casa cadente, a 9ª casa desde a antiguidade, era vista como auspiciosa porque, estando associada com a sabedoria, significava a eliminação da ignorância e do erro. Esta é a casa que simboliza a saída da ignorância e, desse modo, dá à pessoa competências para tomar boas decisões para agir.

Na Astrologia Helenística, a 9ª casa era designada por «casa de Deus». Paulus Alexandrinus referiu-se a esta casa como estando relacionada com os deuses, os sonhos e o viver em país estrangeiro.

Curtis Manwaring , um estudioso deste sistema astrológico, usa uma imagem que ajuda a compreender melhor os significados da 9ª casa: esta é como o túnel de luz por onde a alma é conduzida após a morte(representada pela 8ª casa)  saindo de um meio onde experienciou crises, luta e obstáculos difíceis, para a pureza da iluminação. Esta imagem pode ser entendida de vários modos pois, do mesmo modo que nem sempre a 8ª casa se refere à morte física do corpo, mas indica o fim de um ciclo e o renascimento para um novo ciclo, a 9ª casa simboliza a iluminação, tanto a que se refere por ex., a uma experiência sagrada ou mística como a que advém da reflexão filosófica (que, para os filósofos gregos, nunca era apenas uma atividade da razão lógica (dianoia) mas era também um processo de intuição e contemplação (nous), ou ainda a compreensão nova que surge como  resultado  da superação de duras provas e sofrimento, tal como as mostradas pela 8ª casa, e que se traduz numa nova luz para a pessoa, que desenvolve, desse modo, novos  princípios de orientação e de ação.

Assim, não é de admirar que, para os astrólogos helenísticos, o Sol que representa este princípio de «iluminação» do espírito, fosse considerado como «rejubilando» na 9ª casa.

A 9ª casa também significa os rituais, os da religião e associados com a fé e também os que a pessoa, na sua vivência pessoal do sagrado, sente necessidade de repetir. Porque todo o ritual é uma repetição de uma experiência ou evento. Ora, esta repetição tanto pode ser feita usando elementos simbólicos que recriam uma determinada ação passada, considerada sagrada, como podem ser constituídos por processos mentais que permitem construir uma visão global e um significado completo dessa experiência, transformando-a deste modo em sabedoria e exemplos que podem ser mostrados e «copiados» pelos outros. Os rituais são necessários porque a aprendizagem de valores  filosóficos ou espirituais assenta na experiência de vida , mais do que no mero raciocínio lógico.  A 9ª casa simboliza esta sabedoria nascida da capacidade de ver a ligação entre todas as partes de uma situação ou experiência, de captar o seu significado global. Ao contrário da 3ª casa, que discrimina, divide em partes e analisa, a 9ª casa une novamente essas partes num todo em que a unidade é dinâmica e é sempre mais do que a mera soma das partes. Talvez seja a partir daqui que nasce a ligação entre a 9ª casa e a «ortodoxia»: ao compor  a «verdade do todo» há a tentação para a ver como definitiva e imutável ,precisando apenas de ser repetida e não transformada. Este é um ponto fraco que pode ser superado pela mente aberta que tem consciência do caráter provisório de todas as «noções de verdade».

A 9ª casa também significava os sonhos, as profecias. Estes significados apelam para o caráter sagrado das experiências da 9ª casa em vários sentidos: por um lado, era crença comum no mundo antigo que era nos sonhos que as verdades divinas se revelavam, relacionadas com o futuro e com «o que iria acontecer». A crença nessas «verdades» era do  domínio da fé, do assentimento a algo superior à razão e que devia ser aceite sem contestação por esta. O homem, reconhecendo-se naturalmente inferior aos deuses, ouvia, durante o sonho, «instruções» e revelações que lhe diziam respeito como parte da humanidade na Terra. Em última análise, estes significados indicam que, ao agir de forma consciente no mundo terreno, o homem continua a ouvir e a aceitar a orientação divina sobre «o que é melhor  fazer».

A 9ª casa é também indicativa de viagens para terras estrangeiras. Simbolicamente é fácil de entender este significado pois, ao abandonar a 8ª casa, de crises e tumultos que obrigaram a fazer um completo processo de renascimento, o indivíduo mudou radicalmente a sua realidade, está diferente e, enquanto não ganhar a sabedoria que lhe permita sentir familiaridade com o mundo que encontra nesta nova realidade, está em «terra estranha» e em situação estranha. Mas não é apenas neste sentido simbólico que se considerava que a 9ª casa indica vida em lugares distantes. Na verdade, ela era um dos elementos  analisados quando se pretendia saber, de antemão, se uma pessoa iria viver na sua terra natal ou se, pelo contrário, viveria «exilada» em terras estrangeiras.  Mas, como nota Robert Schmidt, o investigador das casas na Astrologia Helenística, a 9ª casa mostra o nativo como alguém que está em terras estrangeiras mas como «espetador», ou seja, como alguém que, na verdade, «não pertence ali». Estas deslocações para terras estrangeiras assumiam frequentemente  um caráter «peregrino», como quando se viajava longamente para consultar um oráculo (acontecimento frequente entre os gregos, que tinham oráculos famosos como o de Delfos, procurado por pessoas de muitas origens diferentes).Assim, a estadia em terras estrangeiras significada pela 9ª casa é uma estadia temporária, não é a estadia de alguém que se estabelece na vida dessa sociedade estrangeira mas a de alguém que a visita temporariamente.

Há ainda outro significado interessante  da 9ª casa. Como refere Valens, esta é também a casa dos amigos e da comunidade. Mas estes amigos e comunidade são especiais, são os que se referem à pertença a um grupo ligado por ideais de sabedoria como acontecia com Platão e a sua academia e muitos outros filósofos da época clássica grega ( Aristóteles, Epicuro, Pitágoras)  e em outras paragens, quando se  deixava a família para procurar a iluminação que guiasse a  compreensão  espiritual da vida e da sua ação ou a comunidade religiosa monástica, na qual também a família de origem era abandonada em troca de uma nova forma de vida e novas regras de conduta.

Assim, a 9ª casa simboliza a conquista, pelo ser humano, de um novo estágio de ser, que abandona  o véu de ignorância da existência mundana para aceder à procura de uma sabedoria profunda, que apenas se exprime através da filosofia e da experiência místico/religiosa. É a ponte para um novo ciclo de ser.

Robert Schmidt sintetiza ainda alguns outros significados da 9ª casa: esta é a casa do «bom declínio». Para entender isto é preciso relembrar a classificação das casas como referimos em artigo anterior e que está relacionado com o movimento da Terra em torno do seu eixo abaixo e acima do horizonte. É uma casa do bom declínio porque, pelo movimento natural da Terra, ela leva algo do nativo para longe deste mas, neste caso, o que é levado é algo bom para o nativo: leva a ignorância e permite-lhe encontrar a sabedoria para reger as suas ações. É também a casa dos reis e da soberania, da religião e demais saberes espirituais e as suas práticas;  dos sonhos e da manifestação dos deuses. Valens, como referimos, acrescentou os amigos e a comunidade; os astrólogos medievais especificaram que as viagens de que trata a 9ª casa são as de longa distância. Também transferiram o significado de realeza e soberania para a 10ª casa, provavelmente por ser aí , no meio do céu, que a Luz solar atinge o seu máximo de intensidade e de brilho, o que convinha à natureza real, também ela expressa pelo Sol.

 

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