Dignidade dos Planetas e Modos de Receção

mentes em interação

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Falamos hoje do conceito de «receção» incluído no contexto das «dignidades» que a astrologia antiga reconheceu e estudou. Este conceito de receção coincide com o conceito de «dispositor». Vamos explicar como. Não se trata, neste primeiro conceito, da receção mútua, de que falaremos abaixo neste artigo.

Os medievais, no comentário que fizeram a esta dignidade, referem (Al  Biruni séc XI) que o planeta em receção é aquele que , estando na dignidade de um outro,  recebe uma cortesia.

Esta cortesia significa, ao mesmo tempo, que o visitante  recebe uma cortesia do planeta visitado e que se coloca  «ao dispor»  do outro, ao mesmo tempo que também é influenciado e controlado pelo planeta que o «recebe».

A força de um planeta dispositor é essencial para avaliar a força de qualquer planeta que é recebido no seu signo. O planeta dispositor é como o «proprietário» da casa (signo) que recebe o outro planeta, que é visto como um visitante residente na casa de outro.

A benevolência (ou o seu contrário) e o bem-estar (ou aflição)  e a disposição geral do planeta dispositor vai afetar diretamente  o bem estar e o conforto do planeta visitante.

Deste modo, a hostilidade do planeta dispositor para com o planeta que o visita, ou a sua fraqueza ou aflição produz, inevitavelmente, «desconforto» na expressão do planeta visitante.

O resultado é que esse planeta «em casa de outro» pode não conseguir exprimir a sua energia da forma mais positiva, podendo ser difícil ser capaz de defender e proteger os seus significados.

Porém, os antigos não se ficavam por aqui na análise da receção de um planeta: é que, se o «proprietário da casa», isto é, o regente do signo que recebe outro é o elemento mais forte na receção, há que contar ainda com outros  fatores embora secundários: por ex.  Vénus está colocado no signo da Lua, Caranguejo. Deste modo, é «recebido» pela Lua porque está em sua casa. A Lua é dispositora da expressão de Vénus.

Mas há que contar também que Caranguejo tem outras «dignidades», como o facto de Júpiter ficar exaltado no signo de Caranguejo. Então, Vénus é igualmente  «recebido» por Júpiter. E a relação entre ambos influencia a expressão da energia de Vénus.

Subsequentemente, em graus sucessivamente de menor importância, Vénus é também «recebido» pelos planetas regentes da triplicidade em que se encontra o signo Caranguejo, pelo regente do «termo» e pelo regente da «face».

O planeta dispositor é aquele que recebe o outro na sua casa (próprio signo)  e, por isso, controla a relação. Ao mesmo tempo é recetivo para o outro, transferindo algum do seu poder  e influência mas controla e influencia sua expressão.

Este conceito de receção mostra claramente que, quando um planeta não está colocado em nenhuma das dignidades essenciais, é de grande importância que o astrólogo analise ao mesmo tempo o estado do planeta dispositor ou que recebe outro no seu signo, antes de fazer previsões sobre os efeitos desse planeta não dignificado.

Receção Mútua

Ocorre também aquilo a que se chama «receção mútua» que é o facto de um planeta ser  recebido por um outro que também o recebe por estarem ambos no signo um do outro ou no signo de exaltação um do outro. Isto é o que a astrologia Jyotish designa por «parivartana yoga».

Para os antigos, dois planetas em «receção mútua» estão conscientes um do outro e reconhecem ser necessário «prestar cortesia» e mostrar consideração um pelo outro.

A receção mútua revela familiaridade entre os dois planetas, que se conhecem bem e essa familiaridade ajuda a reduzir os aspetos negativos que existem na relação entre ambos.

Os autores antigos comparavam esta situação com a visita mútua dos regentes de dois países inimigos que, por razões mútuas de conveniência, revelam consideração um pelo outro.

A situação em causa revela perigo, mas, ao mesmo tempo, ambos os regentes se sentem protegidos porque conhecem bem o outro e as vulnerabilidades deste, perante o poder que têm sobre ele.

Dois planetas em receção mútua por estarem no signo um do outro ou no signo de exaltação do outro têm a mesma orientação , seja qual for a natureza do relacionamento energético entre ambos: exprimem e exigem respeito, embora a expressão de «respeito pelo outro nem sempre seja autêntica.

Isto é mais comum quando dois planetas estão no signo de exaltação um do outro, podendo coexistir tensão entre ambos.

Mas a receção mútua nem sempre  tem um mesmo nível de dignidade : dois planetas podem estar em receção mútua sem estarem ambos no mesmo grau de dignidade- se um planeta está no signo de exaltação do outro e este último está no próprio signo do anterior, isto é também receção mútua pois esta  indica apenas o estado  geral de um planeta receber outro ao mesmo tempo que o outro o recebe a ele (seja qual for a dignidade em que se encontrem).

Mas, tal como as «dignidades» têm a sua hierarquia de importância, é melhor e mais forte que dois planetas estejam em receção mútua no próprio signo ou no signo de exaltação do que no termo ou na face, pois as últimas dignidades têm menos peso na determinação dos efeitos dos planetas.

Efeitos da Receção Mútua entre Planetas

Um dos fatores a considerar, para analisar os efeitos da receção mútua são os aspetos que os planetas envolvidos formam entre si. Falamos aqui dos aspetos tradicionais que a astrologia helenística desenvolveu  e não dos aspetos segundo a astrologia Jyotish.

Eis o modo como esta influência era vista pelos astrólogos antigos: dois planetas em receção mútua e formando aspetos amigáveis, tiram o máximo partido da sua interação, que produz benefícios para ambos.

Dois planetas em receção mútua e formando aspetos difíceis um com o outro como a oposição ou a quadratura, também beneficiam, pois a receção mútua faz com que cada um dos planetas exerça controlo sobre os danos que o aspeto em causa poderia causar , limitando esses danos. Mas os benefícios ficam-se por esta «limitação de danos» dos aspetos em causa.

Deste modo, quando um planeta benéfico está em receção mútua com um planeta maléfico, tem menos possibilidades de ser prejudicado pela influência maléfica do outro.

Os astrólogos antigos davam muita importância a este fator, considerando que os aspetos entre os planetas só dão verdadeiramente resultados positivos quando existe alguma forma de receção entre os planetas.

Esta «receção», como referimos atrás, não necessita de ser a mesma para ambos os planetas nem  com a mesma dignidade. Porém, ambos os planetas em aspeto deverão «ser  recebidos» pelo outro planeta, em algum grau, para que os aspetos formados entre si produzam reais efeitos .

Isto porque a «receção mútua» indica sempre o espírito de cooperação (forçada ou não) entre os planetas envolvidos; indica esforço para trabalhar em conjunto, compromisso de ambos com um determinado objetivo.

A receção mútua era deste modo considerada como um fator facilitador dos efeitos dos aspetos entre os planetas. Porém, só por si, não indica, necessariamente, sucesso . Para avaliar esse sucesso é preciso ter em conta a disposição global dos planetas em receção mútua.

Por ex., Saturno no signo Carneiro está em receção  com o Sol no signo Balança, estando ambos no signo de exaltação do outro. Mas, de acordo com a dignidade reconhecida pelos antigos, ambos os planetas estão no signo de detrimento (debilitação).

Ora, isto significa que ambos estão muito fragilizados pela posição por signo. Deste modo, não são de esperar resultados muito positivos desta receção mútua: nenhum dos planetas tem força suficiente para ajudar o outro a produzir efeitos positivos.

Um planeta colocado no signo de exaltação de um outro nem sempre se sente confortável com o dispositor (neste caso o planeta que fica exaltado nesse signo) podendo haver ou não transferência do poder e influência do  planeta exaltado ou não de acordo com a disposição global da carta.

Note-se ainda que o estudo da receção mútua dos planetas tem aplicação pronunciada no estudo da sinastria ou estudo dos relacionamentos. Mas isso é tema para um outro artigo.

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