Tetrabiblos de Ptolomeu- Poderes dos Planetas

imagem estilizada de planeta

Começamos neste artigo a explorar para os leitores a obra máxima da astrologia antiga, Tetrabiblos de Ptolomeu, composta por 4 livros, descrevendo as características e a natureza dos planetas. Ptolomeu nasceu no ano 100 da era cristã  na cidade de Alexandria, na altura sob o império romano.

Foi o mais célebre astrónomo do mundo antigo, sendo também matemático, geógrafo e astrólogo. A sua conceção do universo, controversa por várias razões, dominou o mundo até à entrada do século 18.

A visão do universo concebida por Ptolomeu está hoje ultrapassada mas a sua obra mantém-se como a principal referência da astrologia ocidental.

Porque já fizemos uma introdução aos vários astrólogos helenísticos[1], não iremos repetir-nos aqui, escolhendo uma abordagem dos elementos que pensamos terem mais  interesse para os leitores e que são exatamente as bases astrológicas, definidas por Ptolomeu.

Deixaremos de parte os elementos de astrologia judiciária hoje em desuso embora na antiguidade fosse de grande importância para, por exemplo, fazer previsões sobre o clima, a escolha do tempo apropriado para efetuar sementeiras e colheitas, etc.

Começaremos por ilustrar a caracterização dos planetas , a sua natureza e «poderes» segundo Ptolomeu:

Natureza dos Planetas

Sol-  O sol tem uma natureza quente e seca. Quanto mais perto está do zénite mais afeta a vida na Terra em todas as áreas.

Lua- O maior poder da Lua é a humidade. A sua ação na Terra humedece e amacia, causando também a putrefação dos corpos. Partilha parcialmente da propriedade de calor do Sol, devido à luz que recebe deste.

Saturno- a sua qualidade principal é esfriar e secar. Alguns dos poderes de Saturno advêm-lhe dos aspetos para o Sol e para a Lua.

Marte- O poder principal de Marte é secar e queimar, dada a sua proximidade em relação ao Sol.

Júpiter- a natureza de Júpiter é ativa e temperada devido à sua posição entre o poder frio de Saturno e a secura ardente de Marte. Tanto aquece como humedece e isso faz dele uma força de fertilização.

Vénus- Tem os mesmos poderes e natureza temperada de Júpiter mas atua de forma oposta: embora aqueça moderadamente devido à proximidade do Sol, a sua ação principal é humidificar, como a Lua, pois combina a sua luz própria com a humidade exalada da Terra , da qual se apropria.

Mercúrio- Tem uma natureza que , pela proximidade do Sol, é de secar mas também absorve humidade. Tem uma ação humidificadora devido à proximidade da Lua. E tem uma natureza que muda rapidamente, devido ao próprio movimento em torno do Sol.

Planetas Maléficos e Benéficos

A caracterização dos planetas como maléficos e benéficos tem a ver com a natureza dos mesmos de acordo com os «4 humores» como eram designados no mundo antigo: dois considerados benéficos, formando um conjunto- o quente e o húmido- que favorece a fertilização e a criação da vida;

e dois considerados maléficos- o frio e o seco- que, em conjunto, destroem a vida, gerando morte e separação da estrutura de um ser.

Deste modo, Ptolomeu refere que os «antigos» (no Egito e Babilónia) consideravam Júpiter, Vénus e a Lua como benéficos pois têm na sua natureza as qualidades do quente e do húmido, sendo também temperados em natureza;

E, pelas razões opostas, consideravam Marte e Saturno – este último por ser demasiado frio e Marte por ser extremamente seco- como sendo maléficos pois têm um forte poder de destruição e desagregação da vida;

Quanto ao Sol e a Mercúrio, partilham ambas as  naturezas,  assumindo ainda a natureza de outros planetas com os quais estiverem conjuntos.

Planetas Masculinos e Femininos

Considera-se que a humidade é uma qualidade feminina. Deste modo, por conterem em si  em grande abundância esta qualidade, Vénus e a Lua são femininos;

Por sua vez, o seco é uma qualidade masculina  por isso, o Sol, Saturno, Marte e Júpiter são masculinos.

Mercúrio, por sua vez, partilha ambas as qualidades, pois tanto produz  humidade como secura.

Porém, há ainda outro fator a condicionar a natureza feminina ou masculina dos planetas, decorrente da sua posição em relação ao Sol: quando um planeta se ergue de manhã antes do Sol,  independentemente do referido atrás, torna-se masculino (estrela da manhã); por sua vez, quando um planeta segue o Sol depois de este «se pôr» no final do dia, o planeta torna-se feminino (estrela da tarde).

Esta mudança de natureza feminina ou masculina dos planetas também ocorre devido à sua posição no horizonte : quando um planeta se encontra colocado entre a cúspide da 10ª casa e o Ascendente (movimento anti-horário) ou entre a cúspide da 4ª casa e da 7ª casa (movimento horário) torna-se masculino pois estes quadrantes do horóscopo são masculinos e chamam-se «planetas de este».

Quando um planeta se encontra colocado entre o Ascendente e a 4ª casa (sentido horário) ou entre a cúspide da 7ª casa e a da 10ª (sentido anti-horário) torna-se feminino pois esses são quadrantes femininos e chamam-se «planetas de oeste».

Planetas Diurnos e Noturnos

O dia, devido à sua qualidade quente e ativa, é considerado masculino; a noite, pela sua qualidade húmida e de «descanso» (passiva) é considerada feminina.

A Lua e Vénus, neste contexto são considerados femininos; o Sol e Júpiter são masculinos.

Mercúrio é tanto diurno como noturno: é diurno quando é um «planeta da manhã» e noturno quando é um «planeta da tarde».

Os maléficos Marte e Saturno são atribuídos a cada um dos sectos, não por terem a mesma natureza mas pela razão oposta, isto é, Saturno, que é frio, é atribuído ao dia, que é quente, para que a sua malevolência extrema  se torne mais temperada,  considerando-se,  deste modo, um planeta diurno;

E Marte, extremamente seco, é atribuído ao secto noturno, pela mesma razão: a humidade da noite tempera a sua secura, reduzindo a sua malevolência. Marte considera-se, deste modo, um planeta noturno.

Desta forma, os planetas maléficos têm uma expressão mais equilibrada quando estão nestes sectos referidos atrás, produzindo menos mal.

Poder dos Aspetos com o Sol

Esta característica mostra como a relação entre os planetas e o Sol aumenta ou reduz o poder destes: a Lua, na fase da Lua cheia  e da Lua nova para o primeiro quarto produz mais humidade; da fase do 1º quarto produz mais calor; da fase cheia para o último quarto produz mais secura; e do último quarto para a ocultação ( Lua nova) produz mais frio.

Devemos aqui lembrar que o calor e humidade são geradores de vida e criação e o frio e o seco de destruição e morte ou desagregação.

No que se refere à órbita dos planetas em torno do Sol, quando são orientais ao Sol produzem mais humidade; para compreender esta matéria precisamos de introduzir o termo «estação de um planeta».

Esta tem a ver com a posição do planeta : este «ergue-se» no lado esquerdo da carta astrológica  (Ascendente , modelo circular) e move-se em sentido  horário para culminar em cima na cúspide da 10ª casa; «põe-se» na 7ª casa do lado direito e anti-culmina no fundo do céu, na cúspide da 4ª casa.

Este movimento deve-se à rotação da Terra a cada 24 h e chama-se movimento primário dos planetas.  Agora, segundo Ptolomeu, os planetas produzem mais «humidade» entre a 1ª e a 10ª casa . Produzem mais calor da 10ª para a 7ª casa; produzem mais secura da 7ª cas apara a 4ª; produzem mais frio no último quarto da carta.

Quando há aspetos com outros planetas, essa relação produz uma mistura de influências que deve ser julgada de acordo com as forças de cada planeta na configuração.

No próximo artigo continuaremos a explorar o Livro I da obra Tetrabiblos de Ptolomeu.

 

[1] Pode ler vários artigos neste site sobre as origens da astrologia, no menu «Astrologia Helenística».

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