As Casas do Horóscopo na Astrologia Helenística

Iniciamos hoje a escrita de uma série de artigos que procuram dar a conhecer como a astrologia antiga considerava as casas do horóscopo. Todos os sistemas astrológicos posteriores partiram destas conceções iniciais sobre este tema.

Na sua origem, a astrologia era inseparável da astronomia e os primeiros esboços teóricos tiveram por intenção a constituição de um calendário que marcasse o tempo e os ciclos vitais e também as formas como o destino (Moira, no grego) se exprimia na vida humana. É  por isso que consideramos tão interessante o artigo de Robert Schmidt  The Facets of Fate: The Rationale underlying the Hellenistic System of Houses in the Mountain Astrologer (1999-2000) . Nele o autor alude ao conceito de «alma cósmica» dos gregos que viam nas estrelas fixas e nos planetas a expressão dessa alma  do mundo ou consciência universal. Para os gregos, era certo que existe uma «ordem» que marca a harmonia da vida como um todo, e segundo o qual cada ser no universo tem «um plano», uma porção de «destino» que deve cumprir de acordo com a justiça (dike) divina. Podemos assim considerar que se trata de uma causalidade natural que distribui a cada ser e indivíduo a «devida proporção de destino» que este deve cumprir. Estas porções de destino eram, segundo a conceção de «moira» distribuídas  por cada área da vida individual e «no devido tempo». O «destino», assim entendido, é um princípio ordenador que distribui e combina, em cada área da vida individual, a «porção devida» no momento certo construindo todos os fios que tecem a globalidade da existência, num todo coerente pois cada uma das «porções» vividas está ligada a todas as outras que compõem um só destino individual e concorrem para que este se cumpra. Nesta conceção, os princípios do destino atingem todos os seres do universo, incluindo os deuses. Nenhum ser escapa à causalidade inerente à existência.

O sistema de casas do horóscopo mostra, neste sistema, a forma como o «destino» que nos é distribuído interage com as nossas ações  e áreas de vida ao longo do tempo. Para os gregos, o destino está predeterminado mas nem tudo o que nos acontece, é resultado dessa predeterminação, caso contrário, as filosofias clássicas de Platão, Sócrates e Aristóteles não teriam insistido, como fizeram, na importância da ética e do objetivo fundamental da existência como sendo «o aperfeiçoamento da alma» (Sócrates e Platão). Mais ainda, Platão foi muito claro ao afirmar que a existência presente é resultado das ações passadas do indivíduo. No sistema helenístico, o destino resultante das ações  humanas é visto no eixo da 10ª casa /4ª casa, com ênfase na 10ª casa.

Inicialmente, as casas eram vistas a partir de dois conceitos diferentes: um que correspondia ao domicílio de cada planeta: falava-se na «casa de Marte» por ex., como sendo o signo cuja regência era de Marte. Neste contexto, «casa» era associado a «espaço» concreto (topos), o lugar onde o referido planeta vive. Como cada planeta tinha um domicílio diurno e outro noturno, referente aos dois signos que rege, cada planeta domina sobre «dois lugares diferentes». Por ex., o domicílio de Marte no signo Carneiro não é o mesmo que o domicílio do mesmo planeta no signo Escorpião, seu «lugar noturno». As casas eram também designadas como as «áreas», espacialmente concebidas, da vida humana, tendo sido referenciadas 12 casas, calculadas de diferentes formas segundo o propósito  desejado. Por ex., para analisar os irmãos, os pais, a profissão, o casamento, o mapa era dividido de forma a providenciar informação sobre cada uma destas matérias. Isto pode ser visto também na Astrologia Jyotish através da divisão da carta natal das cartas divisionais.

A filosofia helenística usava o sistema de casas iguais, isto é as «casas» iniciavam-se com o signo ocupado pelo Ascendente e este era considerado todo ele como a 1ª casa . Mas, paralelamente a este sistema geral das casas do horóscopo, a astrologia helenística usava também divisões dinâmicas do horóscopo para averiguar a força de um planeta, tendo percebido que cada planeta não tinha a mesma força em todas as partes do horóscopo. Este  estudo, que pode ser observado também na Astrologia Jyotish no seu estudo das «forças» e fraquezas do horóscopo, consistia habitualmente em dividir por 3 cada ângulo do horóscopo- por ex., entre o Ascendente e a 4ª casa, entre esta e o Descendente, etc. Era tido em conta o grau do Ascendente e o grau do F. C (4ª casa) e a soma dos graus entre estes dois pontos era dividida por 3. A partir daí, verificava-se em qual das 3 porções estava um determinado planeta, seguindo-se o princípio geral de que as casas angulares são as mais fortes, as sucedentes têm força média e as cadentes são as mais fracas. Esta classificação era deste modo usada como ferramenta específica para determinar a força dos planetas numa casa.

Desde o início, deste modo, as casas foram entendidas como «lugares espaciais» pois eram o domicílio dos planetas e também, numa análise dinâmica, simbolizam áreas da vida como a profissão, o casamento, etc. A tradição astrológica dos árabes manteve esta conceção simultaneamente tópica (relativa a «lugar» ou espaço) e dinâmica, mas terá sido perdida pela astrologia posterior dos medievais.

A astrologia helenística tinha ainda outra classificação das casas, separadas em «casas boas»  e «casas más». Esta classificação referia-se simplesmente ao facto de  se considerar que os planetas nas casas referidas como «boas» produzem resultados bons, acontecendo o inverso nas «casas más».

As casas boas, segundo estas conceção, eram: 1ª, 4ª, 5ª, 7ª 10ª, 11ª. Alguns autores acrescentavam a 3ª casa às casas boas. Porquê esta classificação? Muito simplesmente devido aos aspetos que se criam entre estas casas e o Ascendente, considerado  como o ponto fundamental e central do horóscopo. Qualquer planeta nestas casas, ao formar um «aspeto»- correspondente a uma forma geométrica como quadrado, triângulo,, sextil e até oposição relaciona-se com o Ascendente e, logo, com o destino individual. Por isso, o lugar onde se posicionam (a casa onde estão) é considerada «boa». Já os planetas colocados nas restantes casas não formam aspetos com o Ascendente e, por isso são incapazes de influenciar o destino individual. O conceito de «casa má» era, deste modo, associado à capacidade que o planeta tem  – ou não- de influenciar a vida da pessoa.

Apresentamos de seguida um resumo dos significados das casas a partir dos autores helenísticos conforme o artigo citado de Robert Schmidt:

1ª casa-  vida e respiração de vida; corpo e aparência física; o comportamento de acordo com a expressão visível das qualidades da alma; lugar em que o nativo vai dos perigos e sombras para a luz e a vida (Rhetorius); irmãos (Hermes); bases da fortuna (Hermes). A astrologia medieval seguiu estes significados.

2ª casa- esta era chamada de «portão do Hades». Significa os meios de sobrevivência e subsistência, incluindo as propriedades, as posses e a sua aquisição; parcerias, rendimentos e despesas; boas expetativas. Os medievais mantiveram estes significados.

3ª casa– chamada de «deusa», «boa declinação», «lugar à sombra», «lugar entre mundos». Significa irmãos, amigos e parentes, relacionamento com hóspedes e convidados; viagens; reino ou realeza, rainha; autoridade do trabalho ou dos recursos; sonhos e devoção religiosa (Rhetorius). Os medievais acrescentaram as viagens «curtas» , ignoraram o significado de autoridade e realeza e acrescentaram cartas, mensagens e comunicação.

4ª casa-  Hermes chamava-lhe a «fundação da felicidade». Significa os pais, as circunstâncias parentais e o património; o que pertence às raízes (fundações, terras); habitação e residência (vida do lar, vida na comunidade); confinamento; retribuição (Valens); assuntos velhos, místicos, assuntos escondidos (secretos); assuntos relacionados com o pós morte; crianças (Ptolomeu e Valens); esposa (Valens); os medievais mudaram «pais» para o pai e mudaram a mãe para  10ª casa.

5ª Casa-  designada por «boa fortuna». Significava crianças; amizade e sociedade (Valens); ações benéficas (Valens). Os medievais acrescentaram romance e assuntos amorosos, prazer e diversão.

6ª Casa- Designada por «má fortuna» «declínio para a base», «retribuição», «lugar entre mundos». Significa ferimentos e acidentes, doença, fraqueza, escravos,, inimigos e as suas conspirações; vingança (Hermes); quadrúpedes (Rhetorius). A astrologia medieval retira os inimigos e transfere-os para a 7ª casa e acrescenta: mover-se de lugar para lugar, especificando que os quadrúpedes significados pela casa se referem a animais que não são montáveis (cavalos burros, etc. ficam excluídos).

7ª Casa– casamento ou união sexual: esposa; viagem para o estrangeiro; morte. A tradição medieval inclui as parcerias de todos os tipos, inclui a inimizade e hostilidade.

8ª casa- designada por «lugar de ócio». Morte, fraqueza, herança ou benefícios obtidos a partir da morte, justiça (Valens); vida e modo de vida (Hermes); os medievais acrescentam «o dinheiro dos outros».

9ª casa- chamada de «Deus», «bom declínio». Significa viagem; reis e a soberania; religião, astrologia, assuntos e práticas esotéricas, sonhos e manifestações dos deuses; comunidade e amizade (Valens); os medievais especificaram que as viagens eram de «longa distância» e transferiram a realeza e soberania para a 10ª casa.

10ª casa- ação, profissão ou ocupação; reputação; classe social, honras, privilégios e progressos; pátria; crianças; esposa e casamento; governar e liderar (Hermes); mudança e renovação (Valens); vida e alma (apenas Hermes e Maternus). Os medievais acrescentaram a mãe, provavelmente por terem lido mal uma passagem do livro III de Tetrabiblos. Esta casa era a principal para significar as crianças na época helenística.

11ª casa- Chamada de «bom espírito». Significava as esperanças e boas expetativas; presentes; amizade em especial com pessoas altamente colocadas; alianças; patrocínios, preferências, crianças; emancipação dos escravos. Os medievais mantiveram os significados.

12ª casa– chamada de «mau espírito». Significava inimigos, escravos, submissão dos escravos; quadrúpedes; perigos; doenças e ferimentos (muitas vezes fatais), viagens para o estrangeiro; tribunais de julgamento (Valens); subsistência e modo de vida (Hermes);  os medievais especificaram que os inimigos são escondidos, por oposição aos inimigos declarados  da 7ª casa. Adicionaram prisões e especificou que os quadrúpedes aqui significados são os de montaria. Não dá grande importância às viagens.

Continuaremos a escrever sobre as conceções das casas na Astrologia Helenística no próximo artigo.

Transmissão da Astrologia Helenística para a Índia

Durante muito tempo especulou-se sobre a relação entre a Astrologia Helenística oriunda da cultura greco-romana e a Astrologia da Índia. Hoje sabe-se que houve efetivamente uma transmissão do saber astrológico  helenístico para a Índia.

Segundo investigadores como Buché-Leclerq,  que afirmou, no livro publicado no final do séc. XIX L’Astrologie Grec que a Astrologia Helenística chegou à Índia no séc. II da era cristã, a Astrologia Helenística deu um forte contributo para o desenvolvimento da astrologia na Índia. Prova disso é o texto publicado no séc. IV, segundo estimam os investigadores, e cujo nome Yavanajataka remete para os gregos, pois esse é o significado de yavana: Yavanajataka significa «técnicas do horóscopo dos gregos».  Este livro é hoje considerado  a prova de que a Astrologia Helenística esteve também na base da Astrologia da Índia, embora esta tenha recebido, tal como a própria Astrologia Helenística, contributos de outros povos e culturas e tenha também contribuído com os seus próprios sábios para o desenvolvimento do sistema da Astrologia Jyotish.

O investigador David Pingree, cuja tese de doutoramento teve por objeto o Yavanajataka, confirmou, através desta investigação,  esta tese; comparou as teorias astrológicas helenísticas com as do texto Yavanajataka e constatou duas coisas: este livro foi a principal forma de transmissão das técnicas e conhecimentos astrológicos helenísticos para a Índia e, em sengo lugar, constatou que uma boa parte das técnicas astrológicas usadas para construir e analisar horóscopos na Índia foram derivadas das técnicas da astrologia helenística. Este texto é a fonte mais recuada de astrologia na Índia e, segundo este investigador, foi a base dos vários sistemas astrológicos da Índia. Proficiente no domínio do sânscrito e em outras línguas antigas, Pingree afirmou que o Yavanajataka foi uma tradução de um texto grego , escrito segundo crê o autor, no séc. I em Alexandria. Terá sido transportado num navio mercante no séc. II para o norte da Índia, onde existiam várias colónias gregas de comerciantes, desde as conquistas de Alexandre Magno. O texto terá sido traduzido para sânscrito por um grego, estabelecido na Índia em meados do séc. I, que se terá convertido aos costumes locais.

Em meados do séc. III, o texto foi rescrito em versos por outro grego convertido aos costumes locais, chamado Sphujidhvaja. Pingree constatou igualmente que a terminologia da Astrologia da Índia é em geral uma tradução dos termos usados em grego, para o sânscrito. Basta pensar em palavras como casa «kendra» (kentron em grego) , apoklima, panaphara (epanaphora em grego) , trikona (trigonon em grego) e muitas outras. A aplicação destes conceitos é também muito semelhante entre estas duas formas de Astrologia.

Porém,  a Astrologia não começou na Índia com este livro, ela  também já existia na Índia antes da importação dos conceitos da Astrologia Helenística. A Astrologia praticada na Índia era uma astrologia lunar, baseada nos Nakshatras. Acredita-se que, além desta Astrologia lunar, existiam na Índia, antes de o texto yavanajataka aí ter chegado, algumas outras tradições trazidas de outras culturas de que se destaca a Mesopotâmia. A Astrologia Helenística foi, deste modo ,assimilada em conjunto com outras práticas astrológicas existentes na Índia nessa época  tendo integrado teorias por vezes díspares nesse sistema conhecido como Jyotish e dando lugar a diversas correntes e sistemas  astrológicos que se mantêm até aos dias de hoje. Mas, ao longo destes primeiros séculos, os astrólogos da Índia trabalharam o Yavanajataka , fazendo algumas alterações que começaram a marcar as diferenças da abordagem da Astrologia da Índia em relação ao ponto de partida da Astrologia Helenística. Porém, muitos consideram que a Astrologia praticada na índia ainda hoje está mais  próxima da antiga Astrologia Helenística do que  a Astrologia Ocidental de hoje, apesar de a cultura grega ser a matriz principal da cultura e ciência ocidental, o que torna ainda mais relevante estudar as técnicas usadas pelos antigos astrólogos helenísticos.  E este é o propósito que nos atribuímos, ao iniciar esta rubrica sobre a História da Astrologia e a Astrologia Helenística. Pois não há como ir ás fontes primeiras deste saber arcano, para compreender as lições fundamentais de sabedoria acerca do ser humano e do seu destino, que nos são reveladas pelos sábios que as desenvolveram e transmitiram para as outras culturas.

Tradição Astrológica- Séculos V e VI

Terminamos, com este artigo, a visão geral sobre as origens da astrologia, na cultura greco-romana e a sua relação com as teorias filosóficas da época.  As técnicas astrológicas desenvolvidas neste período foram a base de todos os sistemas astrológicos que se disseminaram pelo mundo, embora fossem sofrendo, com o tempo, alterações , tanto na astrologia medieval  do ocidente como nos sistemas de astrologia que se desenvolveram na índia, como veremos no próximo artigo. No século VI a tradição astrológica encontrava-se estabelecida.

Apesar de ter havido muitas diferenças filosóficas entre os astrólogos helenísticos de que temos vindo a falar, nota-se, no vasto conjunto de textos que ficaram desses tempos, que os vários autores usavam uma terminologia semelhante e técnicas semelhantes, remetendo portanto para o facto de que todos tinham por referência fontes de conhecimento astrológico comuns, ou seja, uma mesma tradição astrológica.

Firmicus Maternus, do séc. V, atribuía a origem da ciência astrológica a Hermes Trismegisto. Este autor forma uma genealogia da História da Astrologia a partir de Hermes, afirmando que este passou estes conhecimentos a Asclépio , considerou que  Nechepso e Petosíris explicaram esses conhecimentos e Abram, Orfeu e Critodemus ,por sua vez, continuaram esta tradição. É claro que, como no presente, cada autor pode ter acrescentado algo novo a este saber mas, no essencial, as teorias remontam aos primeiros fundadores da astrologia o que mostra que existia uma tradição astrológica  comum partilhada por inúmeros astrólogos.

Tendo em conta o que foi referido, é geralmente aceite que os astrólogos helenísticos tardios tinham uma visão de que o  conjunto do saber astrológico instituído devia ser conservado e não precisava de grandes alterações. Isto acontece porque se acreditava que os primeiros fundadores da astrologia eram seres sábios, com natureza superior à do homem comum e o saber que ensinavam era sagrado e totalmente verdadeiro. Era o saber que um mestre astrólogo apenas passava aos que mostravam merecer conhecê-lo. Era considerado um sistema de sabedoria  que tinha sido revelado a alguns por inspiração divina mas  com uma natureza  rigorosamente racional. Implicava uma visão do cosmos e do lugar do ser humano nessa ordem cósmica essencial. Evidentemente que, para se tornar mais compreensível, este sistema foi, desde o séc. II antes de Cristo, articulado com as teorias filosóficas de que já falámos em artigos anteriores.  Assim, a astrologia dos primeiros tempos estava sempre associada à Filosofia da Natureza professada pelo astrólogo que a praticava. Mas, ao mesmo tempo, os astrólogos evitaram o uso do vocabulário filosófico e desenvolveram uma terminologia astrológica independente, para explicarem os seus procedimentos e técnicas.  E, ao invés de tentarem compreender o plano abstrato do ser, focaram-se na vida terrena e no plano dos eventos na terra, embora  o tivessem articulado com o plano transcendente e divino.

O saber  da Astrologia Helenística tem uma natureza sistemática organizada e forma um sistema que pode ser traduzido em práticas astrológicas de que começaremos a falar em breve, deixando aos leitores as práticas originais usadas pelos primeiros astrólogos para lerem o horóscopo e desvendarem, a partir dele, os eventos e circunstâncias do destino humano pessoal. Os astrólogos helenísticos construíram um sistema articulado de conceitos e técnicas, ramificando-se pelos vários aspetos abrangidos pela análise astrológica e possuindo uma coerência própria, pelo que os seus conceitos podem facilmente ser usados de acordo com os princípios , atribuições e aplicações que lhes foram dados originalmente.

Por exemplo, o sistema de casas usado ainda hoje na astrologia Jyotish, é herdado dos astrólogos helenísticos. Estes estavam conscientes do movimento de inclinação da Terra  e sabiam  que a eclítica forma muitas vezes ângulos inferiores a 90º no Ascendente e Meio do Céu, numa dada carta natal. Mas a escolha de um signo inteiro/uma casa foi uma opção dos astrólogos dos séculos V e VI como se vê nas obras de Vallens, Maternus, Paulo Alexandrinus, que estavam bem cientes da declinação terrestre. Mas,  para estes autores, a relação «casa/signo inteiro» mostra áreas da vida enquanto que o Ascender e culminar  dos ângulos do horóscopo mostram a força relativa dos signos e planetas. Do seu trabalho e técnicas astrológicas surgiram as atuais abordagens  e significados das casas do horóscopo e relação com os planetas, como veremos em breve ao explicitar as técnicas da astrologia helenística.

Em meados do séc. VI a astrologia floresceu no império persa e estendeu-se posteriormente pelo mundo árabe, que também salvou as obras de filosofia dos gregos, mantendo-as durante os tempos medievais e salvando-as da destruição , tendo sido «redescobertas» no apogeu do século XII e  e séculos posteriores, também no mundo ocidental.

No próximo artigo veremos as origens da astrologia da Índia a partir da astrologia helenística.

Primeiros Astrólogos -Séculos IV e V

Continuamos a traçar algumas das influências que mais se fizeram sentir na Astrologia dos primeiros tempos e que deixaram marcas na discussão do valor e da natureza da Astrologia até hoje. No passado, a Filosofia e a Astrologia estiveram entrelaçadas, nos aspetos teóricos. Conhecer brevemente algumas dessas ideias partilhadas esclarece muitos dos conceitos de usamos hoje nas práticas astrológicas sem, no entanto, termos consciência clara da sua origem e história. Este artigo aborda especificamente alguns dos primeiros astrólogos dos séculos IV e V da nossa era.

Jâmblico (séc. III e IV da era cristã)  concebeu a existência de uma hierarquia imensa de seres , tanto no plano divino como humano e demónico.  Para este autor, a astrologia praticada na sua época, apesar de ter valor, na sua opinião estava demasiado preocupada com o plano material da vida e descurava o plano espiritual. Considerava que os signos do Zodíaco  recebem o seu poder do Sol  e este, por sua vez, simboliza o Deus incorpóreo, transcendente a todas as coisas. Acreditava, porém, que a divindade penetrava todas as coisas, mesmo no plano terreno.

Para Jâmblico, a astrologia peca por ser demasiado «intelectual» quando analisa a carta natal; ele afirmava que cada indivíduo pode elevar-se, através de exercícios teúrgicos , acima da necessidade e do destino, tal como refere na obra De mysteriis.

Jâmblico considera que a questão, lançada por Porfírio, de encontrar o seu «espírito guardião» não pode ser respondida pela astrologia, porque esta lida com o destino e este só se inicia após o nascimento na Terra, enquanto que o espírito guia de cada um é atribuído antes da descida da alma num corpo físico. Mas Jâmblico admite que a astrologia é uma ciência verdadeira embora limitada pelas capacidades de compreensão do ser humano. Não sendo um verdadeiro astrólogo mas alguém que desenvolveu opinião sobre a astrologia, Jâmblico mantém-se mais perto da corrente teúrgica que acredita na capacidade de alguns seres especiais poderem  produzir milagres e terem uma compreensão superior da realidade por serem «iniciados» na sabedoria ancestral.

Julius Firmicus Maternus foi um astrólogo siciliano, altamente reputado entre os estudiosos da astrologia antiga e uma das principais referências da astrologia dos primeiros tempos.  Viveu no séc. IV e escreveu uma obra em 8 livros, Matheseos. Converteu-se posteriormente ao cristianismo, mas não deixou, por isso, de se mostrar apaixonadamente ligado às astrologia, que considerava uma «ciência dos mistérios» e, como tal, só deveria ser revelada aos que se mostrassem merecedores.  Maternus era defensor do fatalismo  e, posteriormente á sua conversão cristã, afirmou não ter a certeza da imortalidade da alma. Mas aceitou as teses do platonismo que referimos em outro artigo  relativamente à descida e ascensão da alma.  Mudou entretanto alguns aspetos da tradição, afirmando que a alma desce para se encarnar no corpo através da esfera do Sol e ascende, após a morte, através da esfera da Lua.

Para Firmicus Maternus, a mente humana, inspirada pela Mente divina, é capaz de alcançar verdadeiro conhecimento através da astrologia, embora só conheça o destino de forma imperfeita.  Mas, quando praticada com o devido conhecimento, a astrologia  faz previsões verdadeiras. Para este astrólogo, os planetas são os «administradores» do Deus criador e são eles que dão à alma o seu caráter e personalidade.  Referindo-se a Plotino , que argumentou contra a astrologia, defendendo que tudo depende do homem e dos seus próprios esforços para ultrapassar os azares da fortuna, Maternus lembrou que tudo o que Plotino fez para melhorar a própria saúde, incluindo mudar de clima para superar os problemas que tinha de nada lhe serviram, tendo acabado por se render ao «destino». Maternus afirmou também a propósito a sua crença de que o destino não controla apenas o nascimento e a morte, como muitos no seu tempo afirmavam.

Um pensador  do século V, Hércules de Alexandria, apesar de ter argumentado veementemente contra  a astrologia, especialmente contra os autores que admitiam a livre escolha a par com o destino, Hércules acreditava que  o destino é uma ordem imutável e segue a justiça divina. Para este autor, o destino é um sistema de recompensas e castigos que a alma escolhe antes de encarnar na Terra (tal como defendido por Platão no mito de Er, na obra República.) Para Hércules de Alexandria, a astrologia é incompatível com esta conceção por, na sua opinião, aceitar uma «necessidade» (destino)  totalmente impessoal e sem qualquer intenção ou escolha  por parte do indivíduo.  Os astrólogos visados por esta crítica são Manilius e Vettius Valens, que eram apoiantes do estoicismo e afirmavam que tudo o que acontece no mundo se deve a uma corrente causal  de causas físicas. Hércules de Alexandria tem uma noção bastante determinista do destino, mas baseia-o no conceito de justiça moral e divina. E, nesta sua conceção, deixa totalmente de fora os autores que, como Jâmblico e muitos outros, nesta época, pretendem que a teurgia ou a magia podem libertar o ser humano do seu destino, revelado pela astrologia, sem respeitar o princípio básica da justiça que recompensa ou pune o indivíduo de acordo com a sua «virtude».

Proclo (séc. V)  foi um importante pensador, que presidiu à Academia Platónica em Atenas e foi uma das principais escolas filosóficas da época.  Não foi um astrólogo mas, nas sua obras de filosofia, é possível descortinar o que pensa da astrologia e da relação desta com as correntes do «fatalismo». Proclo considerava os planetas como deuses visíveis, intermediários entre o plano sensível e o plano transcendente espiritual e inteligível.  Aceitava que os planetas influenciam, com o seu calor e luz os eventos e seres terrestres, tendo além disso regência sobre todo o mundo terrestre, incluindo as plantas e os metais.  Mas, tendo sido um teurgista, Proclo aceitava que os «decretos» do destino podiam ser mudados, pelo «conhecimento superior» e pela magia.

No próximo artigo continuaremos a falar de alguns tópicos da História da Astrologia.

Primeiros Astrólogos- Influência Neoplatónica

Continuamos a seguir a origem das ideias que influenciaram e influenciam as teorias astrológicas, traçando o percurso da História da Astrologia. Conhecemos essas ideias a partir da sua relação com muitos dos filósofos da antiguidade helenística. Falamos hoje da influência neoplatónica .

Numenios viveu no séc. II da era cristã e professava a teoria defendida pela cosmologia dos  autores gnósticos e herméticos,  de que a alma  humana descia  através do Cosmos pelo portal que era o signo Caranguejo. Quando isto acontecia, perdia a memória da sua vida divina e adquiria as qualidades dos planetas de acordo com a sua posição no momento do nascimento. Segundo esta conceção, as qualidades que os planetas transmitem à alma, no momento em que esta inicia o seu percurso terreno, dependem da distância a que se encontram do plano divino. Reconhece -se assim que os planetas funcionam  em frequências diferentes, ou em «oitavas» diferentes: Saturno, por ex., no plano mais elevado, permite a inteligência e o raciocínio, enquanto a Lua, no plano mais afastado, contribui para o crescimento do corpo físico.  Quando a alma , no processo da morte, ascende a cada uma das esferas dos planetas, juízes colocados em cada uma verificam o grau de pureza ou virtude em que se encontra e, se considerarem que não atingiu o grau de espiritualidade necessário, a alma regressa ao Hades, situado acima das águas entre o céu e a Terra e reincarna novamente durante um período que pode ser muito longo, até que, ao ascender, a sua purificação seja total  e se encontre no estado da «virtude», tal como tinha sido referido por Platão no mito de Er, (República 10, 614-621).

Aceita-se deste modo que a ascensão da alma e a sua descida novamente, uma vez após outra ao plano terrestre, depende das ações do indivíduo em termos morais. Nem sempre  os que professavam esta conceção aceitaram a Astrologia, devido ao fatalismo professado por alguns dos seus praticantes.

Plotino, (séc. III da era cristã) foi  um dos  filósofos mais eminentes do neoplatonismo e argumentou contra a Astrologia. Rejeitou a ideia de que os corpos celestes e as estrelas governem tudo o que acontece na terra e recusou o fatalismo. Entre os seus argumentos está o de que a educação e a influência dos pais é mais forte do que a influência das estrelas; a constatação de que pessoas nascidas ao mesmo tempo deviam ter o mesmo destino mas não têm. Aceita, porém, que os planetas podem ser usados para «prever o futuro» mas  afirma que não o causam, apenas permitem «adivinhá-lo».  Na obra Enéadas, 2.3, Plotino mostra conhecer as técnicas astrológicas, ao mesmo tempo que afirma ser absurdo que os planetas tenham influência uns sobre os outros através dos aspetos ou que tenham relações de «amizade» e «inimizade» quando colocados em certas posições.  Sobre a natureza dos planetas, aceita que estes têm uma  alma pois são deuses mas rejeita que alguns sejam maléficos (como Marte ou Saturno). Rejeita igualmente  que os planetas tenham ação sobe o destino humano pois os seres humanos também não afetam a felicidade dos deuses (logo, porque haveriam estes de se ocupar dos humanos?) . Afirma ainda que a virtude é dada por Deus e que o mal é fruto de circunstâncias externas que resultam de a alma ser mergulhada na matéria. Em suma, Plotino rejeita a Astrologia nas suas teorias fundamentais, aceitando apenas que os planetas podem ser usados para adivinhação porque fazem parte do corpo cósmico e contribuem para a harmonia do todo.

O discípulo mais conhecido de Plotino, Porfírio, (nasceu no séc. III e morreu no início do séc. IV), teve opinião bem diferente da Astrologia, tendo escrito um livro, hoje perdido, onde expôs as ideias (e por vezes copiou do autor) de Antiochus de Atenas. que viveu no séc. II. Nos séculos III e IV a influência de Antiochus era ainda maior do que a de Ptolomeu. Acredita-se que Porfírio terá encontrado o trabalho de Antiochus quando estudou em Atenas. A importância de Porfírio consiste em que ele tentou harmonizar a crença platónica de que a alma é livre da matéria em essência com a sua crença na Astrologia.  Fazendo parte da comunidade pitagórica, Porfírio era vegetariano, afirmando que esse modo de vida contribuía para desligar a alma do corpo e para promover a virtude e a vida espiritual.  Aceita os princípios da Astrologia definidos anteriormente pelos primeiros astrólogos, acredita que os seres espirituais, tanto benéficos  como maléficos calculam os movimentos das estrelas e planetas para prever os «decretos do destino» e afirma ( Stobeus, 2.8 39-42) que a livre escolha dos seres humanos é compatível com a Astrologia. Assim, Porfírio comenta o mito de Er constante da República de Platão, afirmando que, antes de descer para o mundo terreno, a alma é livre de escolher o seu espírito guia. Uma vez encarnada na Terra, fica sujeita ao destino e à necessidade de acordo com a vida que a  própria alma escolheu. Porfírio defende esta interpretação afirmando que ela está de acordo com os astrólogos egípcios que afirmavam que o signo Ascendente e as configurações do mapa de nascimento exprimem a vida que a alma escolheu antes de encarnar na Terra.

Porfírio escreveu um livro  Introdução ao Tetrabiblos de Ptolomeu (para saber mais sobre este leia o artigo aqui) onde  explica pormenorizadamente as técnicas astrológicas usadas por Ptolomeu e outras que este rejeitou, afirmando que a explicação clara e simples destas técnicas tornaria mais acessível a todos a linguagem astrológica. Pensa-se que este livro pode também ter sido a sua resposta às críticas que Plotino fez à Astrologia.

Porfírio considerava que, quando a pessoa conseguia saber qual ao seu espírito guia,  indicado por um planeta, que podia ser conhecido através  da aplicação de um conjunto de regras,(planeta designado por oikodespotês,) no estudo da carta de nascimento, pode ficar livre do destino. No livro atrás citado, Porfírio escreveu um longo capítulo sobre o método de encontrar este planeta e de o distinguir de outros planetas regentes. Autores posteriores como Jâmblico (séc. III e IV da era cristã) também escreveram sobre isto. Falaremos deste autor no próximo artigo.

Primeiros Astrólogos- Hermetismo e Gnosticismo

 

Nos primeiros tempos da Astrologia as ideias filosóficas e princípios metafísicos foram fundamentais para contextualizar as técnicas astrológicas.  Destas, destacam-se as atribuídas a Hermes Trismegisto e aos Gnósticos. Assim, fazemos uma breve síntese do Hermetismo e Gnosticismo.

O Destino (Heimarmenê) tinha um papel importante nas teorias ligadas ao Hermetismo. Este apareceu em época posterior à dos textos em que as técnicas astrológicas e astronómicas apareceram pela primeira vez.  Para esta corrente, a astrologia era vista como o saber acerca do destino a que parte mortal da alma humana está sujeita no nascimento. Para os  pensadores herméticos, as estrelas e os planetas são forças  que limitam a alma encarnada e dos quais a alma, por natureza divina na sua parte imortal, precisa de se libertar. A alma é divina na sua essência, elevando-se acima do Cosmos mas, na Terra, é limitada ou «oprimida» pelos poderes planetários que, por sua vez, estão ao serviço do Destino e da Necessidade. E estes subordinam-se à Providência Divina (Pronoia).

Segundo o texto hermético Pimandro Deus criou o homem à sua imagem mas criou igualmente um Deus Criador (Demiurgo) que, por sua vez, criou 7 administradores- os planetas-  cujo governo constitui o destino.  A alma humana tem uma natureza dupla: a sua parte imortal está acima do plano cósmico no qual os planetas governam, não estando, por isso, submetida ao destino; mas a sua parte mortal está totalmente submetida aos poderes planetários. A parte mortal do ser humano partilha uma porção da natureza de cada um dos planetas. Na morte, segundo este texto, quando a alma reconhece a sua parte imortal, o seu divino self ascende, libertando gradualmente os componentes do seu ser mortal: o corpo, que é dado para a dissolução; o caráter (Êthos) é dado para o daimon (significa «espírito); a seguir atravessa  cada uma das 7  zonas planetárias onde deixa ficar as características astrológicas negativas associadas a cada planeta; ao chegar à 8ª zona a alma «fecha-se no seu próprio ser» ; nos planos superiores a estes a alma é deificada em Deus. implicitamente depreende-se que é a alma imortal que é assim glorificada.  Alguns textos gnósticos referem que a alma é deificada na 10ª zona do plano de ascensão da alma . Assim, a 8ª zona é a fronteira, no plano espiritual, para a alma mortal  mas a alma imortal está acima dos condicionalismos deste plano astrológico. Para estas correntes a astrologia mostra deste modo o destino que afeta a vida e o temperamento do nativo durante a existência mortal. Mas não tem poder sobre a alma imortal.

Um outro texto hermético, o «Sermão Secreto da Montanha» atribuído a Hermes to Tat (corpus Hermeticum livro XIII) afirma que o Zodíaco é responsável por criar 12 paixões ou tormentos  para testar os seres humanos. Estes podem ser superados através de 10 poderes de Deus, tais como o autocontrole, a alegria e a luz. Em outros escritos herméticos afirma-se que o Zodíaco dá a  vida aos animais inferiores, enquanto cada planeta contribui com uma parte da sua natureza para o ser humano, dando qualidades boas e más de acordo com o seu próprio temperamento astrológico.

Num outro texto importante dos escritos herméticos- Discursos de Hermes a Tat-  discutem-se os 36 decanatos (Decans)  conceito cuja origem remonta aos egípcios e à sua religião e que a astrologia helenística incorporou. Os decans eram considerados ,inicialmente, deuses guardiães cuja morada se situa acima do zodíaco e governam seres servidores e seres soldados que residem no éter (aither); esta tradição afirma que os Decans têm poder sobre eventos coletivos como tremores de terra, fomes, rebeliões políticas que afetam muitos. Segundo este texto, governam os próprios planetas e semeiam na Terra bons e maus espíritos.

Este saber hermético  da antiguidade não era, no entanto, fatalista e criticou asperamente o fatalismo dos estoicos. A sua intenção era ajudar o ser humano a elevar-se acima do destino. Porém, consideravam que só alguns seriam capazes de o conseguir devido à realidade de, na sua opinião, a maioria dos seres humanos estar inclinada para o mal  e não ter consciência do seu próprio contributo para a quantidade de mal que existe no mundo terreno.

Entre os Gnósticos houve contributos importantes para compreender a natureza da astrologia. Segundo consta, usaram largamente a numerologia herdada de Pitágoras e o simbolismo astrológico e dividiram o mundo em 12 regiões usando a astro-geografia. Pensa-se que usaram uma tabela de astro-numerologia semelhante à que foi encontrada  em  Teukros na Babilónia. Phibionites e outros fizeram corresponder cada grau do Zodíaco a um certo espírito (daimon) divino ou demónico. Atribuíram igualmente a cada grau do Zodíaco a regência de um planeta. Uma compilação organizada por Paulo de Alexandria refere os métodos que os astrólogos  usavam para associar  cada grau do Zodíaco a um dado planeta. Os gnósticos viam cada grau do Zodíaco como um ser que fazia o «trabalho sujo» dos planetas. Os planetas eram por sua vez governados por seres superiores a eles na hierarquia celeste, como os seres agrupados em 8, em 10 e em 12 até chegar ao criador (Demiurgo) chamado Ialdabaoth (que, astrologicamente, é Saturno). Havia porém muitas seitas gnósticas e certamente nem todas usavam estes princípios da mesma forma mas todos atribuíram a regência das divisões do Zodíaco a um dado planeta pois foi a partir dessa associação que se começou a determinar a força de um planeta e a sua dignidade. Comum a todos estava, porem ,a ideia de que o conhecimento astrológico, ao contrário do que defendiam os estoicos , tinha por objetivo fundamental ultrapassar as foças do destino elevando-se acima destas.

No século II da Era Cristã surgiu um texto chamado Oráculos Caldeus que partilha as conceções dos herméticos e gnósticos mas acrescenta que as forças divinas que estão acima da influência do Zodíaco  são separadas por Hécate, deusa filha de titãs que rege a noite, a Lua, a magia e feitiçaria, e tem governo sobre os céus, mar e terra. Governa o destino. Este é considerado como uma força da Natureza e governa a parte irracional da alma humana. Porém, este texto afirma que é possível o esforço humano para purificar a alma e o corpo usando a alma racional  e esta purificação permite a ascensão da alma para o plano superior da alma imortal e de Deus.

Os Primeiros Astrólogos- Séculos I e II

primeiros astrólogos séc I e II capa

Continuamos a dar conta da História da Astrologia, passando em revista alguns dos primeiros astrólogos.

Thrasyllus foi um astrólogo nascido no séc. I da era cristã em Alexandria e foi o astrólogo do imperador Tibério.  Era, além disso, um erudito, tendo  escrito sobre Gramática e foi  discípulo da filosofia de Pitágoras, tendo estudado com os Pitagóricos na ilha de Rhodes. Publicou edições sobre a obra de Platão e escreveu um livro sobre a filosofia de Platão e dos Pitagóricos. Na sua visão da Astrologia, estava próximo das fontes iniciais deste saber, sendo aceite  que as tabelas que publicou remetem para os trabalhos de Nechepso e Pitosiris e Hermes Trismegistus. Costuma-se atribuir a Thrasyllus uma tabela numerológica  em que se estabelecem associações  zodiacais com os números. O seu trabalho é visto como uma mistura entre os elementos herméticos e pitagóricos.

Através destas influências, surgiu nos primórdios da astrologia a ideia de que os planetas são seres dotados de alma e o mundo celeste (supralunar na designação antiga) influencia decisivamente  o que acontece na Terra (mundo sublunar). Princípios como a «simpatia» referidos em artigo anterior e   o determinismo estoico que, apesar de implicar a ideia de destino não impede a existência de uma causalidade iniciada com as escolhas do ser humano que também elas determinam «o que lhe acontece», forneceram algumas bases fundamentais que justificam a capacidade de previsão da Astrologia.

Um dos maiores vultos da cultura antiga foi Plutarco. Viveu na segunda metade do século I da era cristã e foi um erudito com conhecimento da filosofia de Platão e Aristóteles e sofreu a influência dos estoicos e pitagóricos, para além de ter estudado meticulosamente as tradições persas e egípcias. Embora Plutarco não tenha contribuído diretamente para o desenvolvimento das técnicas astrológicas, foi um dos responsáveis pelo aumento da popularidade da Astrologia nos primeiros 3 séculos da era cristã. Plutarco conhecia a astrologia e usava alguns dos seus conceitos no seu pensamento filosófico. Como sacerdote de Apolo, embora tenha resistido a identificar linearmente o Sol com a expressão do Deus único, usou as conceções de alguns astrólogos do tempo para afirmar que o sol é uma cópia inteligível do Deus único Invisível aos sentidos. Ligou então o sol com o conceito de «nous» (intelecto divino) que considerou ser o «coração do cosmos» e associou a Lua com a «alma do cosmos» correspondendo ao «baço» do organismo cósmico enquanto a Terra era vista como sendo «os  intestinos do cosmos». O macrocosmos era visto assim como uma figura representada analogicamente como semelhante à do corpo humano, com todos os «órgãos» que existem no corpo humano representados por realidades cósmicas específicas. O homem era visto como um «microcosmos» em tudo semelhante ao organismo do universo mas infinitamente muito mais pequeno. Repetia-se assim a máxima hermética «Assim como é em cima é em baixo».

Para explicar a «imperfeição» nos seres humanos e no mundo,  Plutarco adotou a ideia defendida por Platão em As Leis de que há duas almas do mundo, uma benéfica e outra maléfica e afirmou que esta última é responsável pelo movimento irracional que se observa no mundo terrestre. Esta alma maléfica, como dissemos em outro artigo, não foi fruto do pecado, pois já existia antes da criação do ser humano e não é puramente maléfica pois é uma mistura entre influências benéficas e maléficas e é a responsável pela existência do mal no mundo terrestre. Assim, devido à existência destas duas almas e à sua influência  no mundo terreno, geram-se, segundo Plutarco, duas forças que operam na Terra e que dão origem a dois caminhos para as almas: o caminho da mão direita, que segue uma orientação em frente (bem) e o caminho da  mão esquerda que segue para trás (mal).

Para Plutarco as almas humanas são microcosmos da alma universal  como Platão tinha afirmado no Timeu (30 b). E, como estas sofrem a tensão entre a «alma boa» e a «alma má»  a alma de cada ser humano sente igualmente essa tensão. Por isso a alma humana que vive na terra é uma mistura entre destino (heimarmené), sorte (Tukhê) e livre escolha (eph’ hemin). A parte da alma que é dirigida pelas forças de tensão é, segundo Plutarco a alma irracional que Platão tinha comparado, no Timeu (42 d-e) a ‘jovens deuses’ dirigindo a alma. Para além disto, Plutarco afirmava existirem 4 forças cósmicas, de que falámos no artigo referido atrás.

Vettius Valens de Antioquia escreveu no séc. II uma obra que se tornou importante: Antollogiarum na qual constam fragmentos de autores mais antigos como Nechepso e Critodemos, além de ter publicado uma série de horóscopos,  que são uma excelente fonte de estudo astrológico e astronómico. É considerado uma das fontes mais importantes da astrologia helenística. Na sua obra apresenta pormenores de práticas e de técnicas astrológicas que não existem em outras fontes. Tendo viajado muito, apresenta uma variedade de conceções regionais sobre as práticas astrológicas que colheu ao aprender com muitos outros astrólogos. Afirma também na sua obra que testou muitos métodos diferentes e faz juízos sobre eles e a sua eficácia na previsão.

Filosoficamente, Valens é estoico e aceita os pressupostos desta corrente para justificar a Astrologia. Para Valens, o que está em nosso poder (eph’ hemin) refere-se ao modo como nos adaptamos ao destino pelas nossas escolhas e vivemos em harmonia com ele (de nada vale revoltar-se contra o que não podemos mudar). Para este astrólogo, não podemos mudar a parte do destino que é imutável mas podemos controlar o modo como desempenhamos os papéis que teremos que encarnar na vida terrena. Nas suas conceções está portanto implícito que podemos fazer escolhas que se opõem ao destino e a crença de que fazer isso é eticamente indesejável pois só aumentará a força do destino futuro sobre cada um. Aceitar o destino que cabe a cada um é por isso um passo fundamental em termos da vida moral, segundo Valens. Para este astrólogo a astrologia era vista como sendo uma prática religiosa ou sagrada e os conhecimentos astrológicos eram por ele considerados como devendo ser mantidos secretos perante os que não tinham instrução ou desenvolvimento moral para os entender e usar de forma virtuosa.

Valens era, no entanto, um fatalista. Para ele, os «decretos» do destino eram imutáveis e o caminho moral consistia em adaptar-se e aceitar com calma e serenidade na alma (ataraxia) tanto as coisas boas como as coisas más que o destino traz. Para este autor, nenhum sacrifício ou ritual pode alterar o destino expresso na carta de nascimento.

Mas, apesar destes vultos representativos da Astrologia do séc. II, esta época também assistiu aos céticos que apresentavam razões éticas e morais para rejeitar a astrologia. Alguns céticos rejeitavam as capacidades reais de previsão da astrologia devido à impossibilidade de  observação exata das condições de nascimento; outros argumentavam que há muitas pessoas que nascem ao mesmo tempo e têm destinos diferentes. Alguns que nascem em diferentes momentos e locais morrem ao mesmo tempo como acontece nas catástrofes naturais; os animais que nascem ao mesmo tempo e nas mesmas condições deveriam ter o mesmo destino ( e não têm); a existência de diferentes culturas e costumes ou valores é incompatível com o fatalismo astrológico. Estas teses adiantadas pelos céticos desde o séc. II a. C. conviveram, tal como hoje, com o desenvolvimento da Astrologia e da sua prática ao longo dos tempos e haviam de subsistir também por toda a Idade Média.

Os primeiros Astrólogos- Parte 1

Primeiros Astrólogos Helenísticos capa

Continuamos a explicar os primórdios do nascimento da Astrologia, abordando as primeiras tendências e as conceções daqueles que foram os primeiros astrólogos helenísticos.

Conhecem-se horóscopos gregos delineados para escolher o momento mais auspicioso para um dado evento desde pelo menos o séc. II antes de Cristo. Chamava-se a esta técnica «astrologia katárquica».  Esta técnica também era usada para avaliar os efeitos de eventos que já começaram mas de que se deseja prever o desfecho, como no caso de uma doença, encontrar objectos perdidos, encontrar ladrões, escravos fugidos, etc.. Fragmentos contendo estas técnicas foram atribuídos a Trhasyllus. Parece que, nos tempos mais antigos, a astrologia aplicada aos eventos e à previsão dos momentos próprios para a sua ocorrência era considerada menos problemática do que a que astrologia das cartas natais, ligada ao estudo da alma. O futuro  da astrologia nos séculos seguintes, porém, deu cada vez mais importância à astrologia das cartas natais do que à astrologia dos eventos (hoje conhecida como «astrologia horária».

Na astrologia praticada no império romano, uma das preocupações fundamentais era a da duração da vida, tendo-se desenvolvido técnicas que ajudassem a prever isto, sobretudo  para aplicar na vida política. Havia um fascínio com o impacto do destino na vida humana e com as predisposições do indivíduo.

Os escritos Herméticos, datando do séc. II antes de Cristo foram uma influência muito forte. A obra Stromatta incluía referências à ordem das estrelas fixas, o Sol, os 5  planetas,   conjunções e fases do Sol e da Lua, o tempo em que as estrelas se erguem no céu (efemérides). Os trabalhos astrológicos de Nechepso e Petosíris (150 antes de Cristo) também costumam ligar-se à corrente de Hermes Trismegisto. Estes autores contribuíram fortemente para influenciar  as correntes posteriores da astrologia helenística e as suas técnicas.

No primeiro século antes de Cristo, Manilius- associado com os imperadores Augusto e Tibério-  no poema Astronomica  inclui várias técnicas astrológicas mas não há a certeza de que usasse esse conhecimento para fazer previsões, o que não admira, pois, estando próximo do círculo do poder, podia ser perigoso fazer certas previsões que não fossem do agrado de quem as ouvia. Este autor acreditava que o destino é imutável e que a astrologia é a forma de compreender a ordem natural das coisas embora, ba sua opinião, não pudesse mudar os eventos. Acreditava que o Universo era comandado pela vontade divina e que o destino dos indivíduos era decidido pelas estrelas e está predestinado. O papel da astrologia era preparar psicologicamente o indivíduo para aceitar o seu destino. Considerava que a astrologia era um presente oferecido aos homens pelo deus Hermes Trismegisto.

No séc. II da era cristã a astrologia tinha ganho popularidade. Nesta época destacam-se dois autores: Cláudio Ptolomeu de Alexandria e Vettius Valens.

Ptolomeu, uma referência maior da cultura helenística, não foi apenas um astrólogo, tendo sido um cientista empírico, preocupado com o conhecimento e autor de obras de astronomia, música, geografa, epistemologia  e ótica, para além da astrologia. É considerado como o autor mais decisivo da astrologia helenística.  Tetrabiblos é uma obra de referência da astrologia na qual Ptolomeu faz o elogio da astrologia e defende ter técnicas astrológicas melhores do que as da tradição.  Nomeadamente, Ptolomeu critica alguns conceitos astrológicos atribuídos aos autores Nechepso e Petosiris, como as «partes» (kléroê) e a divisão da carta em 12 lugares responsáveis pelos tópicos da vida  humana  que significavam os  irmãos, doença, viagens, etc. e que correspondem às casas do horóscopo.  Ptolomeu rejeitou igualmente algumas subdivisões do Zodíaco e quase todos os métodos baseados na numerologia por considerar que são arbitrários.

Contrapunha a isto que o estudo dos planetas e estrelas em relação com a astronomia podia ser usado pra fazer previsões e que, se o Sol e a Lua e as estrelas influenciam os fenómenos naturais, o clima e as estações., provavelmente também influenciam o temperamento dos seres humanos tal como as condições do ambiente em que são criados influencia o seu carácter.

No próximo artigo continuaremos a falar dos primeiros astrólogos e do seu contributo para a Astrologia que conhecemos e praticamos hoje.